
O metano é um gás de efeito estufa cerca de 30 vezes mais potente que o dióxido de carbono (CO2). Desde o início das medições, sua concentração na atmosfera vem subindo, mas em 2020, cientistas ficaram perplexos com um salto sem precedentes. Agora, pesquisadores acreditam ter resolvido o enigma: a causa principal foi a redução das emissões humanas durante os bloqueios da pandemia de Covid-19.
Embora pareça contraditório, a explicação reside na química atmosférica. Os motores a combustão liberam óxidos nitrosos que, embora poluentes, são precursores dos radicais hidroxila (OH) — conhecidos como o "detergente da atmosfera". O radical OH é o responsável por quebrar as moléculas de metano e transformá-las em CO2 (menos potente). Com menos carros nas ruas em 2020, a produção de OH despencou, e a atmosfera perdeu sua capacidade de "limpeza", permitindo que o metano se acumulasse rapidamente.
A aceleração foi alarmante. O aumento anual do metano quase dobrou, saltando de uma média de 8,6 partes por bilhão (ppb) na última década para 16,2 ppb em 2020. O estudo utilizou dados de satélite e modelagem complexa para confirmar que 83% desse pico foi resultado direto da paralisação das atividades humanas e a consequente alteração química do ar.
Os 20% restantes do pico de metano vieram de fontes biológicas naturais. Através da análise de isótopos de carbono (Carbono-12 e Carbono-13), os cientistas conseguiram diferenciar o metano vindo de combustíveis fósseis daquele vindo de seres vivos.
Pântanos Africanos: O período coincidiu com uma fase intensa do fenômeno La Niña, que causou chuvas torrenciais na África tropical. Áreas como a bacia do Nilo inundaram vastas regiões, criando pântanos gigantescos onde a matéria orgânica em decomposição liberou quantidades massivas de metano.
Gado e Vida Selvagem: O aumento da umidade e do calor acelerou a produção de gás por animais e pela vegetação em decomposição nessas áreas úmidas.
Com a volta da sociedade ao normal e o fim do ciclo de chuvas na África em 2023, os níveis de metano estabilizaram de volta à tendência anterior. No entanto, o Professor Euan Nisbet, da Universidade de Londres, alerta que isso não é motivo para celebração.
"O metano é um indicador sensível do estado do clima global", afirma Nisbet. A descoberta mostra que as fontes biológicas estão respondendo ao aquecimento do planeta (o chamado feedback climático). Como o metano permanece na atmosfera por cerca de 10 anos, qualquer aumento agora significa que teremos que trabalhar dobrado para reduzir outras emissões e evitar que o aquecimento global atinja pontos sem retorno.
Palavras-Chave: metano efeito estufa 2026, poluição e radicais OH, clima e pandemia, emissões biológicas.