Quinta, 11 de Junho de 2026
18°C 25°C
Brasília, DF
Publicidade

“Pobreza de refrigeração” agrava riscos do calor extremo para 600 milhões de pessoas

Conceito vai além da falta de ar-condicionado e escancara como falhas no planejamento urbano, desigualdade e discriminação criam verdadeiras “ilhas de calor” em áreas vulneráveis.

Por: Gutemberg Silva Fonte: Estudo publicado no The Conversation Brasil / Antonella Mazzone, Enrica De Cian & Giacomo Falchetta (2026)
29/05/2026 às 21h31
“Pobreza de refrigeração” agrava riscos do calor extremo para 600 milhões de pessoas

As consequências do calor extremo no planeta não são distribuídas de forma uniforme. Enquanto as temperaturas recordes atingem locais que vão do Brasil a países da Europa, a infraestrutura local, as diferenças demográficas e a capacidade de adaptação ditam quem vai conseguir se proteger do sufoco e quem ficará exposto a riscos graves de saúde. Um novo estudo internacional liderado pelos pesquisadores Antonella Mazzone, Enrica De Cian e Giacomo Falchetta cunhou o termo “pobreza sistêmica de refrigeração” para explicar o fenômeno que afeta gravemente cerca de 600 milhões de pessoas em 28 países em desenvolvimento.

A pobreza de refrigeração não se limita à capacidade financeira de um indivíduo para comprar um aparelho de ar-condicionado. O conceito abrange a forma como a infraestrutura física de um bairro (como a falta de áreas verdes, o uso de telhados de metal e o excesso de concreto que irradia calor) associada à ausência de infraestrutura social (como falta de bebedouros públicos e serviços de saúde) expõe os cidadãos ao calor prejudicial e falha em protegê-los. Essa vulnerabilidade estende-se para além das residências, afetando também a produtividade e o bem-estar em escolas, locais de trabalho e hospitais.

O paradoxo do ar-condicionado e a perda do conhecimento ancestral

Muitas vezes, o ar-condicionado é apontado erroneamente como a única resposta para as ondas de calor, o que gera problemas estruturais profundos:

  • Desigualdade de acesso: A maior parte da população mundial simplesmente não tem recursos para adquirir ou manter o aparelho.

  • Impacto na conta de luz: Em média, o uso do ar-condicionado eleva as contas de eletricidade das famílias em mais de um terço. Durante o verão em favelas do Rio de Janeiro, relatos apontam que o custo com energia chega a triplicar.

  • Sobrecarga e crise climática: O pico de demanda sobrecarrega as redes elétricas e a alta queima de energia acelera as mudanças climáticas, criando um ciclo vicioso que eleva ainda mais as temperaturas externas.

  • Custo ambiental: O processo de fabricação e o descarte inadequado dos aparelhos trazem riscos de liberação de materiais perigosos no solo, na água e no ar.

O estudo alerta que a dependência tecnológica acabou substituindo o conhecimento ancestral e as práticas intergeracionais de convivência com o calor. Métodos centenários de construção bem-ventilada, formas específicas de locomoção, alimentação e descanso foram deixados de lado, reduzindo a resiliência das populações urbanas atuais.

Vulnerabilidade oculta: gênero, deficiência e planejamento urbano

Para qualificar a pesquisa, os cientistas acompanham desde 2020 a rotina de 80 moradores de favelas e subúrbios de baixa renda no Rio de Janeiro, como o Vidigal. Diários online, notas de voz e fotos revelaram que o calor extremo impacta a vida diária a partir de marcadores sociais como renda, idade e gênero:

  • Cuidadores e ambulantes: Precisam alterar rotas ou concentrar o trabalho doméstico pesado nos horários mais frescos do amanhecer e do entardecer.

  • Pessoas com deficiência: Enfrentam barreiras logísticas e de acessibilidade que impedem a estratégia mais rápida de resfriamento, como tomar múltiplos banhos frios ou deslocar-se até praias e cachoeiras.

  • Mulheres trans: A discriminação e o preconceito social fecham as portas de espaços públicos (como lojas, praças e parques) onde outras pessoas buscam sombra. Pelo risco de assédio em banheiros públicos, muitas limitam o consumo de água, transformando o calor em um perigo físico sem rota de fuga segura.

Os autores concluem que a vulnerabilidade ao calor não é um acidente, mas o resultado de decisões políticas e de planejamento urbano. A eliminação de áreas verdes, a aprovação de habitações mal ventiladas e leis trabalhistas frouxas para o trabalho ao ar livre perpetuam a injustiça térmica. Para reverter o quadro, pesquisadores defendem uma ação coordenada que amplie o acesso à água potável, promova o plantio de árvores, reforme os edifícios e inclua ativamente as comunidades mais afetadas no desenho das soluções.

------

 Pobreza de Refrigeração / Calor Extremo / Planejamento Urbano / Justiça Térmica / Mudanças Climáticas / Vulnerabilidade Social 

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Brasília, DF
20°
Tempo nublado
Mín. 18° Máx. 25°
20° Sensação
1.02 km/h Vento
61% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
06h35 Nascer do sol
17h47 Pôr do sol
Sexta
20° 16°
Sábado
28° 14°
Domingo
27° 16°
Segunda
28° 17°
Terça
26° 16°
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,10 -1,64%
Euro
R$ 5,91 -1,20%
Peso Argentino
R$ 0,00 -2,94%
Bitcoin
R$ 342,434,26 +2,97%
Ibovespa
171,497,23 pts 1.71%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias