
As consequências do calor extremo no planeta não são distribuídas de forma uniforme. Enquanto as temperaturas recordes atingem locais que vão do Brasil a países da Europa, a infraestrutura local, as diferenças demográficas e a capacidade de adaptação ditam quem vai conseguir se proteger do sufoco e quem ficará exposto a riscos graves de saúde. Um novo estudo internacional liderado pelos pesquisadores Antonella Mazzone, Enrica De Cian e Giacomo Falchetta cunhou o termo “pobreza sistêmica de refrigeração” para explicar o fenômeno que afeta gravemente cerca de 600 milhões de pessoas em 28 países em desenvolvimento.
A pobreza de refrigeração não se limita à capacidade financeira de um indivíduo para comprar um aparelho de ar-condicionado. O conceito abrange a forma como a infraestrutura física de um bairro (como a falta de áreas verdes, o uso de telhados de metal e o excesso de concreto que irradia calor) associada à ausência de infraestrutura social (como falta de bebedouros públicos e serviços de saúde) expõe os cidadãos ao calor prejudicial e falha em protegê-los. Essa vulnerabilidade estende-se para além das residências, afetando também a produtividade e o bem-estar em escolas, locais de trabalho e hospitais.
Muitas vezes, o ar-condicionado é apontado erroneamente como a única resposta para as ondas de calor, o que gera problemas estruturais profundos:
Desigualdade de acesso: A maior parte da população mundial simplesmente não tem recursos para adquirir ou manter o aparelho.
Impacto na conta de luz: Em média, o uso do ar-condicionado eleva as contas de eletricidade das famílias em mais de um terço. Durante o verão em favelas do Rio de Janeiro, relatos apontam que o custo com energia chega a triplicar.
Sobrecarga e crise climática: O pico de demanda sobrecarrega as redes elétricas e a alta queima de energia acelera as mudanças climáticas, criando um ciclo vicioso que eleva ainda mais as temperaturas externas.
Custo ambiental: O processo de fabricação e o descarte inadequado dos aparelhos trazem riscos de liberação de materiais perigosos no solo, na água e no ar.
O estudo alerta que a dependência tecnológica acabou substituindo o conhecimento ancestral e as práticas intergeracionais de convivência com o calor. Métodos centenários de construção bem-ventilada, formas específicas de locomoção, alimentação e descanso foram deixados de lado, reduzindo a resiliência das populações urbanas atuais.
Para qualificar a pesquisa, os cientistas acompanham desde 2020 a rotina de 80 moradores de favelas e subúrbios de baixa renda no Rio de Janeiro, como o Vidigal. Diários online, notas de voz e fotos revelaram que o calor extremo impacta a vida diária a partir de marcadores sociais como renda, idade e gênero:
Cuidadores e ambulantes: Precisam alterar rotas ou concentrar o trabalho doméstico pesado nos horários mais frescos do amanhecer e do entardecer.
Pessoas com deficiência: Enfrentam barreiras logísticas e de acessibilidade que impedem a estratégia mais rápida de resfriamento, como tomar múltiplos banhos frios ou deslocar-se até praias e cachoeiras.
Mulheres trans: A discriminação e o preconceito social fecham as portas de espaços públicos (como lojas, praças e parques) onde outras pessoas buscam sombra. Pelo risco de assédio em banheiros públicos, muitas limitam o consumo de água, transformando o calor em um perigo físico sem rota de fuga segura.
Os autores concluem que a vulnerabilidade ao calor não é um acidente, mas o resultado de decisões políticas e de planejamento urbano. A eliminação de áreas verdes, a aprovação de habitações mal ventiladas e leis trabalhistas frouxas para o trabalho ao ar livre perpetuam a injustiça térmica. Para reverter o quadro, pesquisadores defendem uma ação coordenada que amplie o acesso à água potável, promova o plantio de árvores, reforme os edifícios e inclua ativamente as comunidades mais afetadas no desenho das soluções.
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Pobreza de Refrigeração / Calor Extremo / Planejamento Urbano / Justiça Térmica / Mudanças Climáticas / Vulnerabilidade Social