
O Rio Yangtzé, o maior da China e um dos mais importantes do mundo, está apresentando sinais robustos de recuperação ambiental. Um estudo publicado nesta quinta-feira (12), na revista Science, revela que a proibição total da pesca comercial, instituída em 2021 com duração prevista de dez anos, interrompeu sete décadas de declínio acelerado da biodiversidade.
Os dados, coletados entre 2018 e 2023 pelo hidrobiologista Yushun Chen e sua equipe da Academia Chinesa de Ciências, mostram que a massa total de peixes coletada em amostras mais do que dobrou no período. Além disso, houve um aumento de 13% no número de espécies identificadas, sinalizando que a fauna está repovoando trechos do rio que antes eram considerados "desertos biológicos".
Um dos indicadores mais celebrados pelos pesquisadores é a recuperação do boto-do-yangtzé (Neophocaena asiaeorientalis asiaeorientalis), o único mamífero de água doce que resta no rio após a extinção do golfinho-do-rio-yangtzé (Lipotes vexillifer). A população desse animal saltou de 445 indivíduos em 2017 para 595 em 2022 — um aumento de 33%.
O estudo também registrou a recuperação de peixes migratórios e ameaçados, como o esturjão-do-yangtzé e o peixe-espada-chinês. Os cientistas atribuem esse sucesso a três fatores principais:
Disponibilidade de Alimento: Mais peixes grandes disponíveis para os predadores de topo.
Redução de Stress: Menos ruído subaquático de hélices e redução de colisões com embarcações.
Fim do "Bycatch": Eliminação da captura acidental de espécies protegidas em redes de pesca.
Apesar dos resultados promissores, os cientistas alertam que a medida adotada pela China foi extrema e teve um custo socioeconômico altíssimo. Para implementar o banimento, o governo chinês teve que:
Recolher 111.000 barcos de pesca.
Assentar e prover nova renda para 231.000 pescadores.
Investir mais de US$ 2,74 bilhões em subsídios e programas de reconversão econômica.
Steven Cooke, professor da Universidade Carleton e coautor do estudo, descreveu a proibição total como uma "opção nuclear". Ele argumenta que, embora eficaz, o ideal seria que governos adotassem gestões baseadas na ciência muito antes de o sistema entrar em colapso, evitando a destruição de comunidades tradicionais de pescadores que, uma vez desestruturadas, raramente retornam ao ofício.
Os pesquisadores sugerem que modelos similares de conservação — talvez menos drásticos, mas igualmente firmes — poderiam ser aplicados em grandes rios como o Mekong e o Amazonas. Atualmente, 18 dos maiores deltas do mundo, incluindo o do Amazonas, estão afundando mais rápido do que o nível do mar sobe, devido à pressão humana, poluição e barragens.
A experiência chinesa prova que a resiliência da natureza é alta quando a pressão antrópica é removida, mas deixa claro que a recuperação total depende de um manejo sustentável que conecte pessoas, água e peixes de forma integrada.
Palavras-Chave: Rio Yangtzé biodiversidade, proibição de pesca China, conservação ambiental 2026