O monstro-de-gila, um réptil que passa a maior parte da vida em tocas subterrâneas, é a fonte de uma substância que originou medicamentos como o Ozempic e o Wegovy, usados no tratamento de diabetes e obesidade. A descoberta levanta a questão da injustiça sofrida pelos animais que geram fortunas, mas não recebem um centavo para a proteção de seus habitats
O monstro-de-gila (Helodermatidae) é uma das poucas espécies de lagartos peçonhentos do planeta. Apesar de seu físico compacto e de sua mordida extremamente dolorosa, o réptil passa 90% de sua vida em tocas subterrâneas, saindo apenas na primavera e no início do verão para procurar comida. O metabolismo lento do animal permite que ele sobreviva acumulando reservas de gordura na cauda.
A peçonha do monstro-de-gila é um coquetel de substâncias bioativas. Uma delas, a helodermina, pode ter aplicações no tratamento de câncer e demência. Mas a descoberta mais notável foi a Exendin-4, uma molécula que pertence ao grupo dos antagonistas de GLP-1, a base de medicamentos como o Ozempic, o Wegovy e o Rybelsus.
Do veneno do lagarto à cura da obesidade
A Exendin-4 ajuda a retardar o esvaziamento do estômago, reduz o apetite, inibe a produção de glucagon e estimula a de insulina. Essa ação causa um balanço energético negativo, levando ao emagrecimento. A descoberta transformou o monstro-de-gila em um ícone da indústria farmacêutica.
Em 2005, o endocrinologista Daniel Drucker, da Universidade de Toronto, usou a Exendin-4 para criar a exenatida, o primeiro antagonista de GLP-1 sintético para o tratamento de diabetes tipo 2. A partir daí, o mercado de medicamentos para diabetes e obesidade explodiu. Em 2024, esse mercado já era avaliado em mais de US$ 28 bilhões, com projeção de chegar a US$ 93,6 bilhões até 2035.
A natureza como farmácia e a questão da conservação
A indústria bilionária gerada pelo monstro-de-gila não é um caso isolado. O Instituto Butantan, em São Paulo, tem uma longa tradição de pesquisa com venenos e peçonhas de animais. Os pesquisadores da instituição já descobriram que o veneno da cascavel pode ajudar no tratamento da esclerose múltipla, substâncias de sapos podem proteger o cérebro contra o Alzheimer, e compostos de escorpiões podem ajudar a regenerar células nervosas.
Apesar da importância desses animais para a ciência e a medicina, a maioria das pessoas nem sabe que eles existem. O monstro-de-gila, por exemplo, é considerado “Quase Ameaçado” de extinção, principalmente devido à destruição de seu habitat. A indústria farmacêutica, que lucra bilhões com essas descobertas, não beneficia esses animais diretamente, o que levanta a questão sobre a justiça na exploração da biodiversidade.
A natureza é uma grande farmácia, mas a ciência séria é fundamental para transformar essas substâncias em medicamentos seguros e eficazes.
Com informações do site ECO