O ataque das forças israelenses à Igreja da Sagrada Família, a única paróquia católica em Gaza, resultou em três mortos, 11 feridos e deixou uma marca simbólica profunda em um conflito já marcado por intensa destruição. O templo, que abrigava civis, incluindo idosos e crianças, era considerado um refúgio espiritual e humanitário na Faixa de Gaza devastada pela guerra.
O pároco argentino Gabriel Romanelli, que mantinha contato regular com o papa Francisco, foi um dos feridos no ataque. A Santa Sé reiterou seu pedido por cessar-fogo e fim da guerra, destacando a preocupação com a situação humanitária e a necessidade de respeitar lugares de culto.
Segundo informações do Vaticano, o papa Leão 14, que havia adotado um tom mais cauteloso no início de seu pontificado, parece ter adotado uma postura mais firme após o episódio. Especialistas ouvidos pela Agência Pública indicam que o ataque pode marcar a “estreia de fato” do novo papa nas discussões geopolíticas.
Simbolismo e contexto
Para o teólogo Gerson Leite de Moraes, o episódio representa o “primeiro grande teste” de Leão 14. O ataque a um local sagrado em tempo de guerra transcende o aspecto religioso e simboliza uma quebra de promessas de proteção. “Atacar uma igreja é mais do que destruir paredes: é violar uma promessa de proteção”, afirma o texto.
O vaticanista italiano Andrea Gagliarducci ressalta que, embora não existam lugares intocáveis em guerra, há um princípio humanitário que deve ser respeitado, especialmente em locais com alta probabilidade de vitimas civis. Ele destaca que a diplomacia da Santa Sé já vinha sendo incisiva, mas o ataque à igreja intensificou a atenção internacional.
Análise geopolítica
O cientista político Leonardo Bandarra aponta que o direito internacional prevê a proteção de civis e instituições não diretamente envolvidas no conflito, como igrejas. O ataque israelense, portanto, feriria não apenas um símbolo religioso, mas também uma premissa legal.
A teóloga Brenda Carranza (Unicamp) alerta para o risco de interpretar o conflito como religioso. Para ela, o episódio se insere em uma lógica política e geopolítica, caracterizada por uma “vingança” e “agressão neocolonialista” do governo israelense de Netanyahu. Ela enfatiza que igrejas, universidades e hospitais têm sido igualmente bombardeados.
Repercussão e próximos passos
Especialistas descartam que o ataque mobilize católicos globalmente a apoiar o lado palestino, mas acreditam que tenha aumentado a pressão internacional. Gagliarducci sugere que o incidente foi visto como uma demonstração de poder israelense, com “vontade de erradicar o terrorismo onde quer que ele esteja, sem considerar as situações colaterais”.
A destruição do local sagrado pode intensificar o olhar mundial sobre o conflito. O teólogo Andrey Mendonça (ESPM) destaca que a Faixa de Gaza parece não ter mais distinção entre alvos militares e civis, incluindo os religiosos. “Por outro lado, [depois do incidente], o mundo pode começar a voltar seus olhos para esse conflito de maneira mais incisiva, pressionando para o fim da guerra”, conclui.
Com informações: Agência Pública / ICL Notícias