Análise de Isabela Rocha traça paralelo entre os orbes mágicos de Tolkien e a empresa de Peter Thiel, revelando como o software reconfigura a soberania e a guerra
Em um ensaio profundo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, a cientista política Isabela Rocha utiliza a obra O Senhor dos Anéis como lente para examinar a ascensão da Palantir Technologies. No universo de J.R.R. Tolkien, as Palantír são pedras videntes que, embora não mintam, oferecem uma visão seletiva e perigosa, servindo a um único senhor: Sauron. Na realidade contemporânea, a empresa homônima, fundada por Peter Thiel — que despreza abertamente a deliberação democrática —, tornou-se o pilar técnico do complexo tecnológico-militar ocidental, integrando volumes massivos de dados para governos e agências de inteligência.
O texto destaca a presença da Palantir em cenários críticos: em Gaza, fornecendo infraestrutura para vigilância em larga escala e decisões militares em tempo real; nos EUA, auxiliando o ICE na priorização de deportações através da plataforma ImmigrationOS; e na OTAN, com o sistema de IA Maven Smart System. Rocha argumenta que o smartphone em nossos bolsos funciona como uma Palantir moderna: um objeto aparentemente neutro que nos permite ver o mundo, mas que observa, classifica e prevê nossos comportamentos enquanto o consultamos, alimentando uma lógica de governo algorítmico onde a política é substituída pelo cálculo de probabilidade.
A Palantir como instrumento de poder e controle
O simbolismo da empresa reflete sua inserção nos processos decisórios mais sensíveis do sistema internacional:
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Visão Totalizante: Capacidade de integrar bases de dados dispersas e opacas para oferecer uma “verdade” operacional a soberanos e generais.
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Perfilamento Político: Transformação da existência humana em hipóteses estatísticas, definindo quem é priorizado, vigiado ou bloqueado.
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Gestão de Probabilidade: Substituição do consenso democrático por arquiteturas técnicas que ajustam o comportamento social via exposição algorítmica.
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A Guerra como Dashboard: Transformação de conflitos e vidas humanas em variáveis ajustáveis dentro de fluxos de dados administráveis.
A infraestrutura do domínio Meta-Trumpista
Para a autora, a Palantir representa a evolução da geopolítica, onde o poder não reside mais apenas no território físico, mas na capacidade de organizar a realidade de forma legível e acionável à distância. O software atua como o arquiteto do poder invisível, mediando a forma como os Estados administram populações e fronteiras. Isabela Rocha conclui que tocar essa “pedra vidente” tecnológica não exige fidelidade, apenas dados. O uso contínuo fortalece um modelo que subordina a soberania humana à lógica de um sistema que enxerga mais longe e decide antes, operando sob a luz fria e violenta do cálculo.
Com informações: Diplomatique