Abaixo-assinado com milhares de assinaturas exige criação de parque paleontológico e unidade de conservação para frear desmatamento e queimadas na região
Uma das maiores riquezas pré-históricas do Brasil, a Floresta Petrificada de Altos, localizada a apenas 50 quilômetros de Teresina, corre o risco de desaparecer antes mesmo de ser plenamente conhecida pela população. Pesquisadores e paleontólogos lançaram um alerta urgente sobre a degradação da área, que abriga troncos fósseis de mais de 250 milhões de anos. O local, que deveria ser um santuário científico, hoje sofre com o avanço do desmatamento, queimadas criminosas, produção clandestina de carvão e a criação irregular de animais, como porcos, que circulam livremente sobre o patrimônio milenar.
A Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP) denunciou que a integridade do sítio foi severamente comprometida recentemente. De acordo com os especialistas, a abertura de uma estrada municipal já resultou na destruição de diversos troncos fossilizados. Além disso, existe o temor de que o licenciamento para uma nova linha de transmissão de energia cruze o território, agravando os danos. Embora o Ministério Público do Piauí tenha conseguido paralisar as obras da estrada, a ausência de uma vigilância permanente torna o local vulnerável a novas invasões e atividades predatórias.
Diante da inércia estatal, o professor Juan Cisneros, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), iniciou um abaixo-assinado que já conta com mais de 1.500 assinaturas. O documento exige que o governo federal e estadual estabeleçam uma unidade de conservação de proteção integral e um parque paleontológico. A proposta é transformar a área em um polo de turismo científico e desenvolvimento sustentável, gerando renda para a comunidade local enquanto se preserva um testemunho raro da Era Paleozoica, período anterior ao surgimento dos dinossauros.
No vídeo a seguir, conheça os detalhes científicos desses fósseis de coníferas e entenda por que a Floresta Petrificada de Altos é considerada um “arquivo vivo” das mudanças climáticas que ocorreram no planeta há milhões de anos.
O valor ecológico da região vai além dos fósseis. A área de Altos é um ecossistema rico, repleto de nascentes, matas de cocais e buritizais, funcionando como um importante refúgio para a biodiversidade da Caatinga. Os troncos fossilizados, alguns com quase dois metros de diâmetro, pertencem a coníferas gigantescas que outrora cobriram o Nordeste brasileiro. Preservar esse espaço significa proteger não apenas a história da Terra, mas também os recursos hídricos fundamentais para as comunidades assentadas nas proximidades.
Atualmente, o território pertence ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e faz parte da Reserva Legal do assentamento Brejo São Benedito. No entanto, o status de reserva legal não tem sido suficiente para impedir a degradação. Uma das soluções técnicas apresentadas pelos paleontólogos é a anexação da área à Floresta Nacional (Flona) de Palmares, que já possui gestão estruturada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Essa transferência daria ao local o rigor técnico e a fiscalização necessários para conter os crimes ambientais.
A isonomia no tratamento do patrimônio nacional é o que move a mobilização dos pesquisadores. Eles argumentam que, enquanto outros sítios paleontológicos pelo mundo recebem investimentos pesados e se tornam patrimônios da humanidade, a floresta piauiense segue “vulnerável e amplamente desconhecida”. A criação de um parque paleontológico permitiria que escolas e universidades utilizassem o espaço para educação ambiental, despertando o interesse de novas gerações pela ciência e pela preservação do meio ambiente.
A pressão popular através do abaixo-assinado é vista como uma ferramenta vital de influência nas decisões políticas de 2026. A expectativa é que o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e o governo do Piauí iniciem diálogos formais para a mudança de categoria da área. Sem uma ação imediata, o risco é que as futuras gerações percam o acesso a um dos capítulos mais fascinantes da história natural do país, transformando o que hoje é pedra e história em cinzas e esquecimento.
A comunidade científica reforça que o tempo é um fator determinante. A cada ciclo de queimadas, a estrutura física dos fósseis pode ser abalada, e o solo sagrado da pré-história piauiense perde sua capacidade de regeneração. A luta pela Floresta de Altos é, acima de tudo, uma luta pela soberania científica e pela proteção de um legado que pertence a todos os brasileiros.
*Com informações: ECO e UFPI.