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Meio Ambiente

Cerrado em Cores: um mergulho no fantástico mundo das flores e beija-flores

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Mais do que uma visão encantadora, a relação dos beija-flores com diferentes flores nativas do Cerrado ajuda na resiliência e regeneração do bioma

Produzir a obra “Cerrado em Cores” e suas mais de mil fotografias foi uma jornada longa e apaixonante pelo Cerrado brasileiro. Passei mais de 10 anos viajando por algumas das regiões mais incríveis do nosso bioma – da Chapada dos Veadeiros à Chapada dos Guimarães, do Grande Sertão Veredas ao Jalapão, passando pela Chapada Diamantina, a Cadeia do Espinhaço e muitas outras áreas riquíssimas em biodiversidade nos diversos estados em que ainda há Cerrado em pé. Foram anos de pesquisa, trilhas, andanças e muita paciência para registrar essas belas interações entre as flores nativas e os beija-flores a elas associados.

Apesar de ser uma atividade apaixonante, fotografar beija-flores não é tarefa fácil. Essas aves são extremamente rápidas, desconfiadas e seletivas. Esperei horas a fio à espreita no meio do Cerrado, com a câmera pronta e o coração acelerado. Aprendi a reconhecer os horários e os comportamentos, a identificar as flores preferidas de cada espécie. E não foi raro ter que viajar para regiões bem remotas para conseguir registrar espécies raríssimas, como o balança-rabo-de-bico-torto (Glaucis hirsutus), o rabo-branco-de-sobre-amarelo (Phaethornis nattereri), o beija-flor-de-gravata-vermelha (Augastes lumachella), o topetinho-do-brasil-central (Lophornis gouldii) e o asa-de-sabre-do-espinhaço (Campylopterus diamantinensis). Cada encontro desses foi uma conquista e uma celebração.

No livro, reuni mais de 300 espécies de flores nativas do Cerrado que produzem néctar e atraem beija-flores. Elas estão organizadas por cor e época de floração, o que ajuda muito na identificação e também incentiva seu uso no paisagismo ecológico.

Algumas das mais representativas são a caliandra (Calliandra dysantha), a paineira-rosa (Ceiba speciosa), o mulungu (Erythrina velutina), o gervão-vermelho (Stachytarpheta ratteri), o gervão-azul (Stachytarpheta gesnerioides), a saca-rolha (Helicteres sacarolha), a cigarrinha (Cuphea melvilla), o mirtilo-do-cerrado (Gaylussacia brasiliensis), o pau-doce (Vochysia elliptica), a gomeira (Vochysia thyrsoidea), a escova-de-macaco (Combretum fruticosum), a lobélia (Lobelia brasiliensis), a paineira-do-cerrado (Eriotheca pubescens), a sucupira-preta (Bowdichia virgilioides), o ipê-amarelo-do-cerrado (Handroanthus ochraceus) e o pequi (Caryocar brasiliense). Todas essas plantas não só embelezam o Cerrado, mas sustentam uma grande biodiversidade que delas dependem.

Lippia lacunosa, planta endêmica do Espinhaço e beija-flor-chifre-de-ouro (Heliactin bilophus). Foto: Marcelo Kuhlmann

É importante ressaltar que essas interações entre flores, beija-flores e outros polinizadores não são apenas encantadoras de se ver – elas são fundamentais para manter os ciclos de regeneração natural do Cerrado. Sem esses encontros, não há polinização. E sem polinização, não há frutos, sementes ou novas plantas. É um ciclo essencial que sustenta a vida – e que está em risco.

O Cerrado, muitas vezes chamado de “berço das águas” do Brasil por abrigar as nascentes de oito das doze principais bacias hidrográficas do país, vem sendo devastado em ritmo acelerado. O avanço descontrolado da fronteira agrícola, o desmatamento em larga escala e a fragmentação dos habitats vêm colocando em xeque a sobrevivência de inúmeras espécies. Não apenas de plantas e animais, mas também dos povos tradicionais que vivem e protegem esse território há séculos.

É urgente entender que conservar o Cerrado não é um luxo: é uma necessidade para garantir o futuro da vida, da agricultura e do próprio bem-estar humano. Conservar o Cerrado enquanto produzimos de forma sustentável é o único caminho que nos permitirá continuar habitando essa região com dignidade.

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E o primeiro passo para conservar e valorizar o Cerrado é conhecê-lo. Dessa maneira, acredito que precisamos trazer essas espécies para mais perto do nosso cotidiano. Não só em áreas de restauração ecológica, mas também nos nossos jardins, parques e cidades. Plantar espécies nativas que atraem beija-flores e outros polinizadores é uma forma concreta de proteger o Cerrado, manter vivas essas redes ecológicas e gerar sentimentos de pertencimento e conexão entre as pessoas e a nossa rica biodiversidade.

O livro, Cerrado em cores. Foto: Marcelo Kuhlmann

Ainda não há muitos viveiros que produzem mudas de plantas nativas, justamente pela falta de conhecimento da população brasileira em geral sobre essas espécies. A ideia do livro é justamente despertar o olhar dos leitores e chamar a atenção para toda essa biodiversidade que temos e que muita gente nem sabe que existe.

Assim, “Cerrado em Cores – flores atrativas para beija-flores” é mais do que um guia fotográfico: é um convite para enxergar com outros olhos esse bioma incrível. É um tributo à beleza, à ciência e à urgência de conservar o que ainda temos. E, acima de tudo, é uma forma de compartilhar esse encantamento com cada pessoa que folheia suas páginas.Para quem tem interesse em conhecer mais esses tesouros, a obra pode ser adquirida online. Ao adquirir o livro você não somente estará levando para casa uma obra de rara beleza, mas também estará contribuindo para os trabalhos de pesquisa pelo nosso Cerrado.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.


Fonte: ECO

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Meio Ambiente

Reflorestar a Amazônia: a nova fronteira econômica e climática do Brasil

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Um estudo do projeto Amazônia 2030 revela que o bioma possui 35 milhões de hectares de áreas degradadas aptos para o reflorestamento, representando uma oportunidade bilionária para a bioeconomia e a remoção de carbono

A crise climática global evidenciou uma realidade há muito negligenciada: a floresta é a tecnologia de remoção de carbono mais barata e eficiente do mundo. Enquanto bilhões de dólares são investidos em soluções artificiais, a Amazônia executa esse serviço naturalmente e em escala massiva. Diante deste cenário, um novo estudo do projeto Amazônia 2030 propõe uma estratégia inovadora e pragmática: transformar o passivo ambiental de 85 milhões de hectares desmatados em um ativo econômico produtivo através do reflorestamento.

O relatório intitulado “Para Proteger a Floresta Amazônica, Precisamos Reflorestar Áreas Degradadas” argumenta que o combate ao desmatamento, embora essencial, não é suficiente se não for acompanhado de uma alternativa econômica sólida. Atualmente, a região abriga vastas extensões de terras abandonadas ou subutilizadas, muitas vezes fruto de atividades ilegais ou de baixa produtividade. A proposta central é converter essas áreas em sistemas produtivos baseados na floresta, como agroflorestas e silvicultura moderna.

Oportunidade econômica sem conflito com o agronegócio

O levantamento identificou que existem 35 milhões de hectares na Amazônia com alto potencial para o reflorestamento que não competem com a produção atual de soja ou gado. Trata-se de terras degradadas que, se recuperadas, poderiam inserir o Brasil em um mercado global de produtos compatíveis com a floresta que hoje supera os 233 bilhões de dólares por ano. Atualmente, a Amazônia captura apenas 3% desse montante, evidenciando uma lacuna de desenvolvimento.

A meta é expandir a atividade econômica dentro do que já foi destruído. Ao criar “empregos verdes” e cadeias de valor estruturadas, a conservação deixa de ser uma imposição externa para se tornar uma escolha econômica viável para a população local, reduzindo a dependência de atividades predatórias como a extração mineral ilegal e a grilagem de terras.

Insegurança jurídica e gargalos de investimento

Apesar do cenário promissor, o estudo aponta desafios críticos que impedem o ganho de escala:

  • Insegurança Fundiária: A falta de regularização de propriedades antigas e a proteção ineficiente de florestas públicas geram incerteza jurídica para investidores e produtores.

  • Escassez de Financiamento: O capital global existe, mas faltam instrumentos financeiros adaptados aos ciclos longos da produção florestal, como fundos de garantia e contratos futuros.

  • Capacitação Técnica: A transição para uma economia florestal moderna exige máquinas adaptadas, assistência técnica especializada e treinamento de operadores locais.

Integração entre meio ambiente, economia e segurança

Os pesquisadores enfatizam que o reflorestamento deve ser encarado como uma infraestrutura essencial para o futuro do Brasil. O estudo recomenda:

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  1. Priorização de Territórios Críticos: Focar as ações em áreas onde a degradação ambiental e a violência se sobrepõem.

  2. Fortalecimento de Órgãos de Controle: Dotar agências ambientais de tecnologia e financiamento estável para garantir a presença do Estado.

  3. Desenvolvimento de Biofármacos e Bioeconomia: Incentivar o uso produtivo de espécies nativas que garantam soberania alimentar e geração de renda a longo prazo.

  4. Uso do Mercado de Carbono: Implementar mecanismos de REDD+ Jurisdicional para recompensar regiões que evitam emissões e restauram a cobertura vegetal.

Reflorestar o que foi perdido não é apenas uma tentativa de retornar ao passado, mas uma forma de organizar o futuro climático e social do planeta. A Amazônia será decisiva para o equilíbrio hidrológico e térmico global, e o reflorestamento de suas áreas degradadas é a reconstrução das condições necessárias para que a floresta em pé permaneça de pé.


Com informações: ECO, Projeto Amazônia 2030

 

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Meio Ambiente

Drones e IA: A nova arma da Irlanda contra a poluição plástica nas praias

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Pesquisadores da Universidade de Limerick desenvolvem aplicativo que mapeia lixo em tempo real para orientar grupos de limpeza voluntária

A luta contra a poluição marinha ganhou um aliado tecnológico de peso na Irlanda. O professor Gerard Dooly, do Centro de Robótica e Sistemas Inteligentes da Universidade de Limerick, desenvolveu um sistema que utiliza drones equipados com Inteligência Artificial para localizar e mapear resíduos plásticos em áreas costeiras de difícil acesso.

O projeto, financiado pela União Europeia através da iniciativa BluePoint, visa otimizar o trabalho de grupos voluntários que, embora dispostos a limpar as praias, muitas vezes perdem eficiência por não saberem exatamente onde os detritos se concentram. Agora, com o auxílio de coordenadas GPS precisas enviadas diretamente para um aplicativo móvel, a remoção do lixo torna-se muito mais rápida e direcionada.

Como funciona a tecnologia

O sistema opera em três etapas principais que integram visão computacional e mobilidade:

  1. Vigilância Aérea: Drones sobrevoam a costa (podendo ser pilotados por pesquisadores ou por cidadãos comuns que queiram colaborar).

  2. Reconhecimento por IA: Um algoritmo treinado analisa as imagens para distinguir plástico de elementos naturais, como algas, rochas e conchas. A tecnologia é tão precisa que consegue detectar objetos de apenas 1 cm de altura a 30 metros de altitude.

  3. Mapeamento Interativo: As áreas poluídas são marcadas em um mapa dentro de um aplicativo gratuito (disponível para iOS e Android), funcionando como um “caça ao tesouro” ecológico para os voluntários.

[00:15] No vídeo demonstrativo, é possível ver o drone sobrevoando a praia de Banna Strand, identificando automaticamente garrafas, tampas e redes de pesca entre os seixos da areia.

A plataforma de detecção de plástico aceita imagens de drones de qualquer fonte, como pessoas comuns pilotando seus próprios drones. O processamento requer apenas software de laptop padrão. Os usuários carregam imagens e recebem coordenadas GPS mostrando locais plásticos detectados. O aplicativo móvel, disponível gratuitamente para iOS e Android, exibe esses locais como um mapa interativo.

— Gerard Dooly, professor e pesquisador de engenharia na Universidade de Limerick

Desafios de Desenvolvimento

Treinar a “visão” do drone não foi uma tarefa simples. O software passou por meses de refinamento para superar obstáculos visuais:

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  • Sombras e Luz: Versões iniciais confundiam áreas sombreadas com acúmulo de detritos.

  • Mimetismo Natural: O algoritmo precisou aprender a não confundir madeira flutuante (driftwood) com garrafas plásticas foscas.

  • Testes Extremos: Foram realizados centenas de voos em diferentes condições climáticas da costa irlandesa para garantir que o sistema funcionasse mesmo sob luz baixa ou vento.

Participação Cidadã e Expansão

O projeto BluePoint já distribuiu mais de 30 drones parceiros pela Europa. A plataforma é aberta: qualquer pessoa com um drone e um laptop padrão pode carregar imagens para o sistema, que processa os dados e gera as coordenadas de limpeza.

“Queremos mobilizar a comunidade. O aplicativo fornece o mapa, os voluntários fornecem a ação.” — Gerard Dooly, Universidade de Limerick.

Local de Teste Principal Tramore, Condado de Waterford (Irlanda)
Financiamento União Europeia (Projeto BluePoint)
Precisão de Detecção Objetos a partir de 1 cm
Disponibilidade App gratuito para iOS e Android


Com informações: The Conversation, Olhar Digital e Universidade de Limerick

Vídeo de Referência: Beach Survey – Bluepoint

 

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Meio Ambiente

Ibama nega licença e arquiva projeto da maior termelétrica a gás do Brasil

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Órgão ambiental barrou a construção da UTE São Paulo, em Caçapava, após detectar falhas graves no estudo de impacto ambiental e falta de comprovação de viabilidade

O Ibama anunciou nesta sexta-feira (23) o arquivamento do processo de licenciamento da Usina Termelétrica (UTE) São Paulo, que seria instalada em Caçapava, no Vale do Paraíba. O projeto, orçado em R$ 5 bilhões pela empresa Natural Energia, estava planejado para ser a maior planta de geração de energia a gás fóssil da América Latina, mas foi rejeitado por não apresentar garantias de preservação ambiental e saúde pública.

A usina teria capacidade de 1,74 GW, queimando cerca de 6 milhões de metros cúbicos de gás natural por ano. No entanto, o Ibama verificou falhas críticas no Estudo de Impacto Ambiental (EIA), confirmando as preocupações de especialistas e da sociedade civil sobre o impacto atmosférico e hídrico em uma região que já sofre com a saturação de poluentes.

Os Motivos do Impedimento

A decisão do Ibama reflete anos de pressão do Ministério Público Federal (MPF) e de movimentos sociais locais. Os principais pontos que levaram ao arquivamento foram:

  • Inviabilidade Ambiental: A empresa não conseguiu provar que o empreendimento não degradaria irreversivelmente o ecossistema local.

  • Consumo de Água: Termelétricas desse porte exigem volumes massivos de água para resfriamento, o que ameaçaria o abastecimento público das cidades de Caçapava e Taubaté.

  • Impacto Atmosférico: O Vale do Paraíba possui uma geografia que favorece a concentração de poluentes (inversão térmica), e a queima de combustíveis fósseis agravaria os índices de doenças respiratórias.

  • Danos Climáticos: O projeto ia na contramão das metas de descarbonização do país, ao priorizar o gás fóssil em vez de fontes renováveis.

Histórico de Resistência no Vale do Paraíba

O processo, que tramitava desde 2022, foi marcado por batalhas judiciais e protestos populares:

Ano Evento
2022 Início do processo de licenciamento no Ibama.
2024 Justiça suspende audiência pública após ação do MPF; fortes protestos em Caçapava.
2026 Ibama nega licença prévia e determina o arquivamento definitivo do processo.


Com informações: ECO e MPF

 

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