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Entrevista

“Febre” do oceano está na origem da tragédia ambiental no RS, diz professor da UNIFESP

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No último dia 13, a água do mar em Fernando de Noronha registrou incríveis 33 graus Celsius. O que pode ser comemorado por turistas ávidos pelo mergulho em um paraíso natural é uma má notícia para o planeta e está por trás da maior tragédia ambiental do Rio Grande do Sul

A alta temperatura das águas no litoral brasileiro reflete a febre que atinge o oceano há 14 meses e teve impacto direto na maior tragédia ambiental do Rio Grande do Sul. O alerta é feito pelo biólogo Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) na Baixada Santista.

“O oceano está com 0.4 a 0.5 grau acima da sua temperatura média esperada. Se fosse comparar com o corpo humano, seria o equivalente a estarmos com 37.7 ou 37.8 graus, o que é febre. Um oceano febril é mais água evaporando, ele absorve menos temperatura. Agora vamos olhar esse cenário: mais água na atmosfera, mais energia e mais calor, uma bolha de ar quente e uma bolha de ar frio brigando, isso levou a muito mais chuva [no Rio Grande do Sul]”, explica Christofoletti em entrevista exclusiva ao Congresso em Foco.

Ronaldo Christofoletti: “Mesmo que o oceano volte para a sua temperatura normal agora, é sabido que, pelas mudanças climáticas, eventos extremos como esse do Rio Grande do Sul vão continuar aumentando”. Foto: Arquivo pessoal

Segundo o professor, o aquecimento do oceano, causado pelo excesso de emissão de gás carbônico, é fator fundamental para a compreensão das intensas chuvas que assolam o Rio Grande do Sul desde o início do mês.

“Ele foi o responsável pela evapotranspiração, pela água, e está sendo responsável por impedir que a água dos rios desemboque no mar. É preciso reconhecer a complexidade desse sistema e o quanto isso impacta nas vidas, na economia, na perda da agricultura, na perda das casas, na perda cultural. Em termos ambientais, a origem da catástrofe no Rio Grande do Sul está no oceano e se soma com a urbanização e impacto antrópico [relativo à ação humana]”, afirma.

Fato Novo com informações: Congresso em Foco

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1 Comentário

1 Comentário

  1. Marcos

    16 de junho de 2024 no 11:01

    Olá! Tudo bem?
    Parabéns pelo trabalho! Desejo que tenha sucesso!

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Brasil

Renan Filho: segredo é somar esforços para melhorar rápido nossa infraestrutura de transportes

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Renan Filho: segredo é somar esforços para melhorar rápido nossa infraestrutura de transportes

Titular da pasta dos Transportes destaca aumento nos investimentos para 2024 e a atuação para reconstruir rodovias no Rio Grande do Sul durante conversa com radialistas

O ministro dos Transportes, Renan Filho, detalhou o aumento dos investimentos no setor de rodovias no país para 2024 no programa “Bom Dia, Ministro” desta quinta-feira, 20 de junho. Durante uma hora de bate-papo com radialistas de todas as regiões do país, ele também atualizou a situação das estradas no Rio Grande do Sul. Segundo o ministro, o estado gaúcho chegou a ter 125 pontos de interrupção nas rodovias federais decorrentes das enchentes. Com a atuação da pasta dos Transportes, 122 pontos já foram liberados e o trabalho segue para que, ainda neste mês, o tráfego das outras regiões seja aberto.

Em relação aos investimentos no estado, Renan Filho reiterou os repasses feitos pelo Governo Federal em 2023 e em 2024. “No ano passado, em 2023, antes dessa catástrofe, nós investimos R$ 1,38 bilhão. Já foram quase três vezes mais recursos aplicados no Rio Grande do Sul do que no ano de 2022. E este ano, com a edição da Medida Provisória, nós temos R$ 2,88 bilhões em orçamento para dar sequência a todas as obras estruturantes que estão sendo realizadas no estado”, declarou o ministro.

Mencionando a continuidade de obras estruturantes, o ministro destacou algumas, como a duplicação da BR-290, a conclusão da duplicação da BR-116, as obras do Complexo Rio dos Sinos – Scharlau, construção de pontes, as intervenções na região de Santa Maria e a travessia de Ijuí. “Agora, o trabalho é pegar a infraestrutura que foi avariada e reconstruir toda ela e tem vários tipos de obras, muitos tipos de obras diferentes. Mas, para isso, a gente tem expertise técnica, o Ministério dos Transportes conhece e o Governo Federal disponibilizou os recursos”, disse Renan Filho.

“O povo gaúcho pode ter certeza que a infraestrutura avariada será reconstruída e, mais que isso, nós daremos continuidade a todas as obras de infraestrutura para impulsionar a recuperação do estado nesses próximos anos”, enfatizou o ministro.

INVESTIMENTOS – Em todo o país, o investimento será de aproximadamente R$ 24 bilhões para cerca de 60 projetos no segmento rodoviário, além de otimizar 14 contratos e gerar investimento adicional de R$ 110 bilhões. “A otimização do contrato significa fazer obras paradas voltarem a andar no Brasil. Nós estamos otimizando, estamos muito otimistas. Isso vai significar mais obra para o povo brasileiro, mais investimento, mais emprego, mais capacidade de desenvolvimento, mais segurança nas estradas. É por isso que a gente aposta nesse caminho”, declarou Renan Filho.

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Com o exemplo de Minas Gerais, o ministro destacou o fortalecimento dos investimentos que resultaram na melhoria da qualidade das rodovias. “Nós voltamos a fortalecer o investimento. A boa nova é que Minas Gerais voltou a melhorar a qualidade da sua malha viária. Subiu de 42% para 51% as rodovias consideradas boas e derrubamos as ruins ou péssimas de 32% para 18%. Isso significa dizer que a estrada responde a priorização e a investimento”, exemplificou.


“Por que o Brasil está reduzindo mortes? Porque o investimento está aumentando, tanto público quanto privado. E a gente precisa aumentar mais, porque infelizmente o trânsito brasileiro é um dos que mais mata no mundo. Mas a maior parte das mortes não ocorre nas rodovias federais, ocorre dentro das cidades”, disse, ao destacar a importância dos investimentos na infraestrutura para reduzir acidentes e mortes.


CONCESSÕES DE RODOVIAS – O ministro Renan explicou, ainda, sobre os leilões para a concessão de rodovias previstos para o segundo semestre deste ano. “Este ano a gente espera fazer 12 leilões de concessão de rodovia. O termo não é privatização, porque privatização significa venda. O segredo é somar esforços. Mais recursos públicos, que o presidente Lula garantiu com a PEC da Transição e com o novo arcabouço fiscal, e maior capacidade de atrair investimento privado para melhorar mais rápido a nossa infraestrutura”, afirmou o titular dos Transportes.

“A gente não vende a rodovia, a gente concede, o privado recebe aquele ativo, faz investimentos e depois do final do contrato ele retorna para o poder público. Porque a nossa constituição diz que estradas são bens inalienáveis, eles não podem ser vendidos”, explicou.

Um dos destaques neste ano foi a realização do primeiro leilão de 2024 do trecho Belo Horizonte – Juiz de Fora da BR-040. O próximo leilão no estado mineiro está previsto para o dia 29 de agosto. “A gente vai realizar agora, marcado para agosto, o leilão da BR-381, que é conhecida como a ‘rodovia da morte’, de Belo Horizonte até Governador Valadares. Essas duas rodovias vão levantar R$ 10 bilhões de investimento em infraestrutura porque, como tem alto fluxo, elas precisam de um investimento maior”, disse Renan.


Em uma explicação sobre os contratos de concessão de rodovias, o ministro esclareceu sobre a execução das obras pelo vencedor do leilão. “Os contratos são de 25 anos e as obras acontecem sobretudo entre o terceiro e o décimo ano do contrato. O vencedor do leilão precisa detalhar os projetos, retirar licenças ambientais, conhecer o trecho, se preparar para fazer a obra. Agora, nos novos leilões, só há cobrança depois do restabelecimento completo da qualidade do pavimento existente. E aí há um investimento já inicial”, disse.

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O programa “Bom Dia, Ministro” é realizado semanalmente em uma parceria da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM). Participaram do programa desta quinta-feira a Rádio Nacional de Brasília (EBC); Rádio Cidade em Dia (Criciúma/SC); Rádio Itatiaia (Belo Horizonte/MG); Rádio CBN (Goiânia/GO); Rádio Gaúcha Serra (Caixas do Sul/RS); Rádio Bandeirantes (São Paulo/SP) e Rede Aleluia.

Confira os principais pontos da entrevista

RODOVIAS GAÚCHAS – O impacto foi muito grande, mas a resposta também foi rápida e o estado do Rio Grande do Sul gradativamente vai se recuperando nessa grande catástrofe. Quase R$ 3 bilhões para 2024 contra R$ 500 milhões no ano de 2022, essa é a grande diferença e por isso as pessoas começam a perceber no Brasil inteiro a recuperação das rodovias federais. No primeiro momento, nós limpamos as rodovias e restabelecemos o fluxo. Houve uma avaria da própria infraestrutura e em parcelas delas, das estradas, nós vamos ter que reconstruir toda a infraestrutura. A gente tem recurso para isso. O fundamental é que as pessoas saibam que, em trechos das grandes cidades, a gente já vive alguma dificuldade de trânsito com a infraestrutura sem a avaria, com a infraestrutura avariada isso aumentou mais a dificuldade, mas não houve interrupção que interrompesse, por exemplo, o abastecimento de alimentos, de remédios, a chegada de combustível.

CONCESSÕES – Conceder rodovias é o caminho adotado no mundo inteiro, inclusive nos países mais ricos. A gente concede as rodovias onde estão colocados os maiores fluxos. Muitas vezes quem paga, sobretudo, é o setor produtivo, que não reclama, porque o pedágio é muito barato perto de um pneu furado. Então, se a rodovia estiver em boas condições, isso reduz o custo do Brasil. Nós vamos licitar a BR-040 entre Goiás e Minas Gerais, também que é o que chamamos de Rota dos Cristais, que sai de Belo Horizonte até Cristalina, aqui no entorno de Brasília. Tem a Rota Sertaneja, que são as BR-153 e 262, entre Goiás e Minas Gerais. Tem a Rota do Zebu, que é a BR-262, que liga o Triângulo Mineiro a Belo Horizonte. Tem dois lotes de rodovias do Paraná, o ano passado nós licitamos dois, esse ano vamos licitar mais dois. Tem também a Rota Verde, que é lá a BR-060 e a BR-452, ali na região de Jataí, em Goiás, e a Rota Agronorte, que é a BR-364, cortando o estado de Goiás, todo o Mato Grosso, chegando até o estado de Rondônia. Só esses leilões visam levantar R$ 61 bilhões de investimentos.

MORRO DOS CAVALOS – O Morro dos Cavalos tem uma rodovia que é externa ao Morro e a ideia é construir um túnel para garantir mais segurança para as pessoas. É uma obra que deve gerar em torno de R$ 1 bilhão. Nós conversamos com a bancada federal ontem e estamos utilizando o contrato de concessão da BR-101. A utilização desse contrato vai garantir uma série de obras novas na BR-101 que totalizarão R$ 8 bilhões e essa obra do Morro dos Cavalos estará inserida. Esse processo ainda não está 100% concluído porque nós ainda estamos dialogando com o Tribunal de Contas da União para garantir as condições da inclusão dessas obras e a otimização do contrato. A BR-101 é uma rodovia muito importante no país todo e é a principal conexão.

BR-381 – O leilão é em agosto e eu queria dizer que a expectativa do Ministério dos Transportes é que dessa vez o leilão vai ser exitoso. Nós vamos levantar ali um volume de investimentos capaz de duplicar desse ponto onde nós vamos fazer as obras públicas até Governador Valadares e transformar a rodovia da morte numa rodovia muito mais segura para as pessoas, muito mais ágil para o cidadão de maneira geral e para a economia. Estamos animados tanto para fazer a obra pública quanto para ter um leilão exitoso e virarmos a página histórica desses desafios que o povo mineiro e brasileiro, porque a 381 é uma rodovia importante para o Brasil, é importantíssima para o desenvolvimento do país como um todo.

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ROTA BRASÍLIA – GOIÂNIA – Nós estamos discutindo a otimização do contrato dessa rota Brasília – Goiânia, que é uma rota viável e que permite novos investimentos. A otimização do contrato pode garantir a obra mais rápido. O anel rodoviário de Goiânia já tem projeto e ele poderia ser reinserido nesse contrato de concessão, isso está em discussão. E as outras, a Concebra, as outras concessões de Goiás, que estão com algum desequilíbrio, alguns trechos serão relicitados, como por exemplo a 262, a Roda Zebu, que é aquela que liga o triângulo até Belo Horizonte, e outros, os contratos serão otimizados. O Brasil fez, historicamente, 24 concessões apenas da década de 90 até hoje, uma por ano, era muito pouco. Veja que a gente está tentando fazer 10 leilões esse ano, para aumentar a capacidade do investimento privado em infraestrutura, porque o Brasil precisa. Agora, dessas 24 que fez para trás, pela curva de aprendizagem, uma parte dessas concessões estavam desequilibradas. Nós estamos otimizando esses contrato.

CAXIAS DO SUL – Nós vamos fazer investimentos estruturantes nas rodovias, além de reconstruir, a reconstrução será com obras mais resilientes. Por exemplo, a ponte sobre o Caí a qual você se referiu ali entre Nova Petrópolis e Caxias, ela será uma ponte mais elevada com cerca de um metro e vinte de elevação com relação à ponte anterior por conta da elevação do rio que também foi a mais alta. Vamos instalar uma ponte para as pessoas terem uma passagem mais fácil entre Caxias e Nova Petrópolis. Faremos também várias outras obras de contenção de encostas. Na BR-470 são as obras mais importantes ali entre Bento Gonçalves e Veranópolis, uma estrada que precisa de obra de contenção. Nessa Medida Provisória que o presidente Lula editou, de R$ 1,2 bilhão tem um bom volume de obras para contenção de encostas, que são obras das mais caras, mas são obras muito importantes e muito relevantes.

OTIMIZAÇÃO – Com isso, a gente vai ter condição de botar todos esses contratos desequilibrados para voltar a performar. O primeiro vai ser a Eco101 lá no Espírito Santo, mas também tem a BR-163 em Mato Grosso do Sul, tem a BR-116 na Bahia, a Via Bahia, que é considerada uma das piores rodovias do país. Então a otimização do contrato significa fazer obras paradas voltarem a andar no Brasil, porque a tentativa anterior que era a relicitação na verdade virou um eufemismo para obra parada, tentava se licitar, não conseguia e as pessoas ficavam com a obra parada, então nós estamos otimizando, estamos muito otimistas com isso.

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Fato Novo com informações e imagens: Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

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Distrito Federal

“Brasília não acolhe os povos indígenas”, afirma Ailton Krenak

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Liderança do movimento indígena, ambientalista e escritor, Krenak, faz críticas ao Congresso Nacional, à falta de acolhimento aos índios em Brasília e ao conservadorismo da Academia Brasileira de Letras

Ailton Alves Lacerda Krenak nasceu em 1953, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, quando o povo Krenak vivia no exílio, expulso de seu território tradicional por invasores que ocuparam e depredaram as matas densas às margens do Watu, como o povo originário chama seu avô-rio. Ailton viveu parte de sua vida em São Paulo, onde estudou e começou a militância no movimento que começava a surgir no final dos anos 1970, reunindo indígenas de muitas etnias em torno de uma luta comum por direitos. Sua imagem pintando o rosto de preto no Congresso Nacional tornou-se símbolo da resistência indígena na Constituinte. Suas ideias estão registradas em livros que nos aproximam dos povos originários e confrontam nossa vida cotidiana, alertando para os efeitos da desconexão entre o homem e a natureza. É autor de Ideias para adiar o fim do mundo (2019), A vida não é útil (2020) e Futuro ancestral (2022).

O escritor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) passou três dias em Brasília, na semana passada, com uma agenda especial. Em entrevista exclusiva ao Correio, critica a falta de acolhimento na capital do país aos indígenas. “Brasília não acolhe. Seria muito interessante que os povos indígenas tivessem espaços mais acolhedores do que fazer passeata na Praça dos Três Poderes e reclamar contra o Marco Temporal. Nos últimos 15-20 anos, os indígenas ocupam Brasília para denunciar abusos e reclamar a demarcação dos seus territórios.”

Krenak é doutor honoris causa pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Em 2023, foi eleito como membro da Academia Brasileira de Letras. A vinda a Brasília fez parte da programação de abertura da exposição “Hiromi Nagakura até a Amazônia com Ailton Krenak”, idealizada pelo Instituto Tomie Ohtake, de São Paulo. Com curadoria dele, a mostra no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) apresenta 120 fotografias inéditas no Brasil do premiado fotógrafo japonês Hiromi Nagakura. As imagens foram registradas em viagens com Krenak, principalmente pelo território amazônico, entre 1993 e 1998. A exposição, com entrada gratuita, vai até 18 de agosto.

O ambientalista regressou nos anos 2000 a seu território, que ajudou a consolidar em 1999. Hoje vive às margens do Watu, ferido pela lama do rompimento da barragem de dejetos da Samarco em 2015. “A cultura colonial brasileira é tão arraigada e a superestrutura de governar o país é toda montada para promover isso que se chama progresso: abrir estradas, construir hidroelétricas. Se você olhar a América Latina, nenhum país criou integração entre esses povos. A disputa pelo território está na base desse conflito”, aponta o escritor. Confira a íntegra da entrevista do imortal.

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O senhor tem sido muito solicitado a vir a Brasília para eventos. Como é a sua relação com a capital federal? O que significa estar aqui e o que ela representa para os povos indígenas?

Quando ainda não existia Brasília, nossos povos desciam de navio, de barco, vinham de lá do Norte, do Tapajós, também de canoa, de jangada, para a capital do Brasil que era o Rio de Janeiro. A gente escuta os velhos falando que alguém fez uma viagem para ir conversar com Dom Pedro II. Dom Pedro II recebia os indígenas na corte. Depois, o governo republicano recebia também. Até o tempo de Getúlio Vargas, os indígenas desciam ao Rio de Janeiro. Depois, quando a capital veio para o centro do país, os povos indígenas tiveram que bater estrada para chegar aqui. E Brasília foi erguida dentro do território Xavante e Karajá. Brasília é uma terra antiga do povo indígena Xavante, Craô, Karajá e acho que Apinajé também. Todos esses povos daqui do Cerrado passavam aqui. Então, ela não é nova, tem um nome novo, mas é um lugar muito antigo. E já abrigou muitos povos, Brasília é isso.

A construção da nova capital expulsou os índios?

Brasília virou essa capital moderna, impessoal. As pessoas que chegam aqui não têm onde ficar, elas têm que correr para ir na Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), no Ministério, no STF (Supremo Tribunal Federal), sair e ir embora, porque aqui não é um lugar acolhedor. Brasília não acolhe. É uma cidade que foi feita para funcionar como sede da burocracia política no Brasil. Seria muito interessante que os povos indígenas tivessem aqui espaços mais acolhedores do que fazer passeata na Praça dos Três Poderes e reclamar contra o Marco Temporal. Nos últimos 15-20 anos, os indígenas ocupam Brasília para denunciar abusos e reclamar a demarcação dos seus territórios. O que significa que essa capital é o centro dos conflitos de interesse político e social no Brasil.

E o que acha do Memorial dos Povos Indígenas aqui em Brasília?

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Eu gosto muito do desenho que o Niemeyer fez. Mas aquele edifício, prédio, não serve para guardar um acervo de arte, não acolhe também as pessoas, não tem um auditório como esse aqui do CCBB. A rampa do Memorial torna impossível você manter uma exposição lá dentro.

A criação do Ministério dos Povos Indígenas pelo governo Lula está conseguindo ter uma atuação efetiva na sua avaliação?

Claro que faz diferença. Só o fato de, em uma entrevista, você me perguntar isso já incluiu o tema. Importante, em meio ao elenco das instituições brasileiras racistas, termos um Ministério dos Povos Indígenas, onde obrigatoriamente terá que ter indígenas lá dentro. Mesmo que este ministério ainda não tenha tido tempo nem condições para fazer tudo para o que ele veio como promessa, a gente deve considerar que é importante a conquista para os povos indígenas.

Chegou a ser convidado ou consultado para participar diretamente neste ministério?

Eu não fui consultado sobre nada, não teria que ser consultado, porque não tenho interesse por política partidária, e isso é no campo da política partidária. O que eu faço é o movimento indígena, não é política partidária.

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Como se sente sendo o primeiro indígena a entrar na Academia Brasileira de Letras?

Chegar à Academia Brasileira de Letras foi o primeiro passo. Nessa tradicional instituição que, até a década de 1990, só tinha homens, nunca havia entrado uma mulher. A primeira eleita, em 1997, foi Rachel de Queiroz. É uma entidade machista, patriarcal e conservadora. Então, eu não tinha o por quê de celebrar entrar em um lugar desse. Mas eu entrei para dizer que eu tenho que manifestar sobre literatura, a oralidade. Os povos indígenas contam histórias há 2 mil anos, a academia tem pouco mais de 100 anos. Ela tem que aprender com a gente, os índios. Eu disse que todo mundo que escreve hoje escreve porque alguém contou uma história antes. Não tem nenhuma escrita que nasceu de uma experiência zero, toda escrita nasceu porque alguém contou, imaginou, sonhou, projetou aquela história. De certa maneira, todas as histórias escritas já foram contadas um dia por alguém que não sabe escrever.

A sua luta é pela preservação e valorização da cultura ancestral indígena que está no DNA do Brasil. Como conduzir isso?

Eu falei na Academia Brasileira de Letras e os meus colegas foram bastante generosos de entender que a minha contribuição poderia ser naquilo que ela não tem. Quer dizer: eu não vou para lá para corrigir a gramática portuguesa, nem ampliar a lusofonia. Eu me propus a levar uma sinfonia para lá. Essa sinfonia é de 305 povos, com suas línguas, com suas diversidades. Os cantos que vêm da floresta sempre existiram, eles não foram compostos ontem. O Tom Jobim, o Villa Lobos fizeram composições, esses povos, não. Eles cantam e contam as histórias; alguns contam a história sobre a criação do mundo. E isso que é memória ancestral.

O grande conflito entre indígenas e Congresso Nacional é a questão do Marco Temporal. A mobilização continua?

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Faz tanto tempo que esse instrumento jurídico é objeto de disputa que dá a impressão que ele já se tornou uma questão política e não tem nada a ver com a Constituição, que não tem nada a ver com a tradição jurídica. Ele tem a ver com uma briga política. E o Congresso que não aceitou que o STF declarasse a inconstitucionalidade do Marco Temporal decidiu legislar sobre o assunto. Então, eles querem fazer um marco particular entre a Câmara e o Senado para atender o agronegócio, para atender os inimigos dos povos indígenas.

Mas eu costumo dizer que nós somos um povo tão antigo, a gente já passou por tantas dificuldades, perdemos tanta coisa… Antes de os brancos chegarem aqui, o Brasil era tudo terra indígena. Agora, está ocupado por todo tipo de empreendimento dos brancos.

É possível vislumbrar uma harmonia entre brancos versus indígenas como nação brasileira, enxergar o fim dos conflitos?

Se você olhar a América Latina, a Argentina, o Chile, como o Brasil, nenhum país criou integração entre esses povos. A disputa pelo território está na base desse conflito. Os brancos querem tomar a terra dos indígenas. Seria muita ingenuidade a gente achar que eles vão virar amigos da gente uma hora para a outra, se há mais de 200 anos só ficam tentando dar golpe na gente. Aliás, no último golpe que tentaram dar, o sujeito que representava o golpe disse que não ia demarcar nenhum centímetro de terras para os indígenas. E o Marco Temporal seria uma maneira de justificar não demarcar nenhum centímetro. Mas nós vamos continuar existindo e eles vão acabar um dia.

Qual sua percepção sobre a tragédia ocorrida no Rio Grande do Sul?

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Foi uma tragédia no sentido de que foi um imprevisto, ninguém estava esperando o tamanho desse dano monumental. Entra no rol das mudanças climáticas e daquilo que são chamados de eventos extremos. O Brasil não tinha tornado, que é um evento climático que acontecia lá no Golfo do México, na Flórida. Nesse final de ano para cá, o tornado invadiu Santa Catarina, Rio Grande do Sul, arrancou telhado, destruiu galpão, desmantelou tudo, mas o pessoal do Sul achou que eles podiam continuar tocando o negócio deles, até que tudo virou lama. É uma grave maneira da gente mudar a ideia sobre o clima. É uma difícil maneira de aprender, que é morrendo e perdendo os bens materiais. Foi um prejuízo irreparável.

Acha que a nova geração de brasileiros, no caso dos brancos, compreende melhor a história do Brasil e respeita mais os povos indígenas?

As crianças que estão com 8-10 anos de idade são todas muito mais honestas do que seus pais. Até aquelas que veem seus pais praticando racismo e discriminação contra negros e indígenas, veem que os pais estão errados. Então, enquanto crianças elas vão dizer: o Brasil é terra dos indígenas, já era dos indígenas. Mas quando crescerem e arrumarem um emprego no banco, no governo, guardarão esse pensamento no fundo da cabecinha e continuarão assinando documento contra o povo indígena. A cultura colonial brasileira é tão arraigada e a superestrutura de governar o país é toda montada para promover isso que se chama progresso: abrir estradas, construir hidroelétricas.

A sua vinda a Brasília foi motivada pela exposição no CCBB. O que ela representa?

O título da exposição reporta à aventura que nós fizemos de iniciar viagens a partir de São Paulo, durante quatro anos seguidos, e passar 30-40 dias viajando pela Amazônia. Um sonho para qualquer pessoa que se interessa por ecologia, cultura, pela Floresta Amazônica. Seria um presente para qualquer um, e eu ganhei há 30 anos, percorrer aqueles rios. E convido a todos a experimentarem um pouco dessa vivência visitando a exposição.

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Fato Novo com informações e imagens: Correio Braziliense

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Agropecuária

A década crucial para o meio ambiente: ‘O agronegócio é o grande inimigo do Brasil’

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No livro ‘O decênio decisivo’, o pesquisador Luiz Marques reúne dados que escancaram os riscos para a vida no planeta

A quantidade de dados sobre as causas da crise climática que assola o mundo, reunidos no livro “O decênio decisivo”, do pesquisador Luiz Marques, pode deixar até mesmo o leitor mais distraído com enormes preocupações sobre os destinos da vida biológica na Terra.

Em meio ao caos ambiental escancarado pelo livro, que é professor livre-docente aposentado e colaborador do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marques não hesita em apontar culpados e tece críticas sobre o setor da economia que considera o grande algoz do Meio Ambiente.

“Mas não é só no caso do sistema alimentar globalizado, o agronegócio é o grande inimigo do Brasil, ele destrói tudo que está na sua frente”, crava Marques, em entrevista concedida ao Brasil de Fato na última quarta-feira (5).

Para o pesquisador e professor, o decênio de 2020 será fundamental para a expectativa da vida no planeta nas próximas décadas. “O que devemos ter ao longo dos próximos anos é essa alternância de calor e enchente, além de poluição, claro. Quando temos essas secas e tudo está desmatada, você tem um Saara, que produz aquelas tempestades de areia que temos visto em várias regiões do país”, explicou.

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Por quê você chegou à conclusão de que essa década é decisiva para o futuro do planeta?

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Luiz Marques: Existem vários elementos que nos obrigam a chegar nessa percepção. O primeiro deles é aceleração. Estamos num processo de aceleração de tudo, e podemos começar falando da aceleração do aquecimento global. Para você ter uma ideia, de 1970 até 2010, na média global, o planeta aqueceu 0,18ºC por década. A cada cinco décadas, aqueceríamos 1ºC. Dos anos 2011 até 2050, ou seja, metade observação e metade projeção, nós devemos ter um aquecimento entre 0,27ºC e 0,36ºC por década. Ou seja, na melhor das hipóteses, a cada quatro ou três décadas temos um aquecimento de 1ºC, é um aquecimento brutal. O segundo ponto é que o processo de aquecimento engendra alças de retroalimentação do próprio aquecimento. O gelo, no Ártico, na Groelândia, em qualquer canto, mas sobretudo no oceano, ele é branco e reflete a luz, então ele não absorve energia solar, ele rebate 90% da luz solar. Quando o gelo diminui, ele é ao contrário, ele absorve 90% e rebate apenas 10%. Então, quanto menos gelo, mais oceano exposto, mais absorção de energia e diminuição de gelo. É um ciclo vicioso. Como acontece na Floresta, se você degrada a floresta, abrindo uma picada, por exemplo, você cria um efeito de borda e gera uma insolação que fica mais fácil de pegar fogo. Quando ela pega fogo, vulnerabiliza e fica mais vulnerável a pegar fogo novamente. Então, não é algo mensurável, nem mesmo em décimos de grau, é uma cadeia de eventos de aceleração.

Eu queria entender, dentro do espírito do que você me diz, que é uma década decisiva, se os resultados das últimas COPs e a postura das grandes economias do mundo lhe deixam otimista com relação aos resultados dessa década.

Eu vou entender que não é uma piada (risos). Ao contrário, você tem 28 COPs e tivemos três grandes tratados internacionais sobre o meio ambiente. Primeiro, Tratado do Clima (1992), a Convenção Sobre Diversidade Biológica (1992) e a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (1996). Passaram-se 32 anos, de 1992 para cá, não houve nenhum progresso. Mais que isso, houve regressão acelerada. Então, nós estamos falando de um fracasso com letras garrafais. Fracassamos completamente. Como definimos o fracasso? É quando você tem uma meta e você nem mesmo se aproximou daquela meta, você se distanciou mais daquela meta. Eu chamo isso de fracasso. Por outro lado, temos uma desmoralização desses encontros internacionais. Eles não funcionam porque as corporações não são obrigadas a fazer isso. As nações não querem se comprometer. Vejam, das dez maiores petroleiras, oito são estatais. Ou seja, os países também não querem se comprometer com políticas de Estado, e o Brasil é um dos exemplos. Vamos dizer que qualquer país seja procurado para assinar um acordo. Ele fará um malabarismo para dizer que assinará, fará um suspense e aí, no último dia da COP, imprensa reunida, ele assina e é aquele carnaval, todo mundo se abraça. Depois, eles não vão cumprir e não há autoridade que os obrigue a cumprir. Se o Brasil destruir completamente a Floresta Amazônica, quem é a autoridade que interferirá na nossa soberania nacional?

Em seu livro, você fala sobre como o sistema alimentar globalizado pode contribuir para a aniquilação biológica. Você fez uma opção de usar o capítulo seguinte para falar sobre o uso indiscriminado de agrotóxicos. Um fato está ligado ao outro?

O agrotóxico, na maior parte dos casos, é um inseticida e mesmo quando ele é um herbicida ele mata a planta da qual o inseto se alimenta. Nós achamos que podemos abrir mão dos insetos, mas não podemos fazer isso. O inseto é um polinizador e 90% da vitamina C que ingerimos vem de plantas polinizadas, que se não são polinizadas morrem. Nós estamos matando as abelhas e outros insetos que fazem a polinização, estamos matando os morcegos, que são polinizadores também, esses animais estão morrendo. Na China, que é um país que usa mais agrotóxico por hectare que o Brasil, as pessoas já estão polinizando manualmente as macieiras, isso é um processo de suicídio completo. A curva de aumento dos agrotóxicos no Brasil é assustadora. O Brasil usava menos de 1kg por hectare nos anos 1970, hoje usamos quase 6kg por hectare. Esses agrotóxicos são produzidos na Europa, onde esses agrotóxicos são proibidos.

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Você diz que precisamos alterar o sistema alimentar globalizado. O que te incomoda nessa estrutura e qual seria a alternativa para ele?

A alternativa é clara: é o MST, é uma produção sem agrotóxicos, onde o produtor está próximo do consumidor, é uma produção que gera prosperidade para o produtor e é uma relação de cooperação entre consumidor e produtor. O modelo negativo é o agronegócio, que usa quantidades cada vez maiores de agrotóxicos, funciona à base de monocultura, usa recursos abundantes do governo para comprar agrotóxicos, ele não produz alimentos, mas sim commodities e o agronegócio é exportador, a uma distância de milhares de quilômetros, transportadas por navios, que geram um imenso impacto ambiental, por conta da emissão de gases. Além disso, o agronegócio não gera prosperidade ao produtor, ele gera riqueza para o dono do negócio, apenas. Ou seja, não há aspectos positivos no agronegócio.

Então, o grande vilão dessa estrutura que você chama de “sistema alimentar globalizado” é o agronegócio?

Com certeza. Mas não é só no caso do sistema alimentar globalizado, o agronegócio é o grande inimigo do Brasil. Ele destrói tudo que está na sua frente. Uma das razões do que aconteceu no Rio Grande do Sul é pelo fato de que a Mata Atlântica foi completamente, ou quase completamente, destruída para colocar soja ali. Se você não tem floresta, não há um esquema de esponja, a floresta é fundamental para isso.

É possível mensurar o tamanho do retrocesso para o Brasil e o mundo quanto ao governo de Jair Bolsonaro?

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Em alguns indicadores, é possível. Por exemplo, uso de agrotóxicos, é brutal o aumento. O nível de desmatamento da Amazônia teve um aumento brutal, chegamos a 13 mil quilômetros quadrados, em 2012 eram 4,5 mil quilômetros. Com a Dilma Roussef, precisamos ser justos, começa a subir um pouco, mas é aprofundado com o Michel Temer e Jair Bolsonaro. O retorno da fome é outro indicador. Voltamos ao mapa da fome. Agora, você tem indicadores que são mais difíceis de mensurar, a regressão mental, o nível de estupidez que foi gerado pela máquina dos algorítimos, aumento da intolerância, essa eu acho que é uma questão importante, temos um prejuízo maior.

Nós viemos de uma pandemia [de covid-19] e estamos acompanhando uma série de enchentes em diversos estados, mas antes tivemos uma enorme onda de calor. O que você imagina que devem ser os próximos eventos para os quais o país deve estar preparado?

Nós teremos uma grande seca no estado de São Paulo, podemos voltar ao que se viveu em 2014. Mas veja, a grande questão não é a seca ou a enchente, mas a alternância de extremos. Então, você terá padrões de chuva como vimos no litoral norte de São Paulo e em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Essa perda da estabilidade do ciclo hidrológico é o grande problema. Os picos de calor no Brasil será outro problema que enfrentaremos. O norte de Minas Gerais, o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul, você já tem temperaturas batendo 44ºC, quase 45ºC. O Brasil entrará na faixa dos 45ºC sem qualquer capacidade de adaptação para esse calor. O que devemos ter ao longo dos próximos anos é essa alternância de calor e enchente, além de poluição, claro. Quando temos essas secas e tudo está desmatada, você tem um Saara, que produz aquelas tempestades de areia que temos visto em várias regiões do país. Agora, em outubro, temos que eleger Câmara dos Vereadores e prefeitos melhores.


Fato Novo com informações: Brasil de Fato

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