O
processo para tirar a
carteira de motorista é complexo no Brasil: envolve, além dos
testes físicos (compostos por um exame de vista e o temido psicotécnico),
aulas teóricas de direção defensiva, mecânica e
legislação, e as
aulas práticas de direção, que são seguidas pela realização de duas
provas finais para comprovar o aprendizado em todos os processos. A última dessas provas é a que inspira mais nervosismo: o
exame prático do
Departamento Estadual de Trânsito (Detran) é também aquele com
o maior número de reprovações. Tem quem tome calmante, relaxante muscular, pratique várias vezes no lugar de realização do exame e invente outros métodos para vencer a ansiedade e passar de primeira. Mas o caso é, em grande parte das vezes, tentar de novo. E de novo, se precisar. E, em alguns estados do Brasil, talvez tentar mais uma vez. É o caso do
estado com o maior número de reprovações do país, embora essa não seja uma métrica oficial:
Minas Gerais. O que dificulta a obtenção de um levantamento claro sobre a estatística das maiores reprovações são as diferenças entre as provas e a falta de sistematização do dado como um todo. Mas o pódio é, inequivocamente,
mineiro. De acordo com informações do Detran de Minas Gerais, o índice de reprovação no estado chegava a
64% em 2023, maior do que em estados como o Rio de Janeiro (51%) e do que a estatística para
a região metropolitana do mesmo estado: na Grande Belo Horizonte, o número se superava e chegava a
67%. No Sul de Minas, dados mais antigos (coletados em 2016) registravam até
70% de reprovações específicas por baliza. Em 2022, de acordo com o jornal Estado de Minas, dos 422.827 exames aplicados em BH e na região metropolitana, só 137.224 conseguiram passar. E, embora saia na frente (aliás, dificulte a saída), Minas Gerais não é o único estado com altos índices de reprovação, característica que é justificada, por vezes, pela
geografia muito singular do estado, repleto de
morros altos e íngremes em que acertar a marcha e dirigir com a embreagem se torna desafiador. E é assim até para os motoristas mais antigos. É comum ver motoristas de aplicativo lutando contra seus próprios motores em subidas inclinadas de quase 90° retos na capital mineira. Enfim, outro estado campeão das reprovações é, de acordo com dados do mesmo período, o
Rio Grande do Sul: a média de reprovações no estado em 2023 era de
63%. E, com os altos valores para a obtenção da
Carteira Nacional de Habilitação (CNH), que podem chegar a
mais de R$ 2 mil para a categoria B (carros), esses números se tornam ainda mais preocupantes. Em outros lugares do mundo, em países mais e menos burocráticos do que o nosso, o processo de obtenção da habilitação varia. Na Espanha, por exemplo, pode durar entre 6 e 7 meses, e é bem parecido com o Brasil: tem aulas teóricas e práticas, com provas aplicadas pelo departamento de trânsito das cidades. Já na Argentina, o processo corre mais rápido: em cerca de um mês (30 dias), entre os exames físicos, uma prova teórica para a qual não é obrigatório assistir às aulas e uma prova prática que também não exige aulas, é possível tirar a carteira. E nada de carro de autoescola: a pessoa pode levar seu próprio carro ou alugar um no local da prova.
O terror da baliza
De forma geral, o maior índice de reprovação no Detran ocorre mesmo na hora da baliza, procedimento que exige calma e cálculo, realizado com limite de tempo (são 5 minutos ao todo) e, portanto, sob pressão. Depois vem o trecho na rua, em que as habilidades de direção defensiva, embreagem e atenção aos comandos e à sinalização são testadas. Dados de 2025 coletados pelo Detran mostram que a taxa de reprovação inicial (isto é, candidatos que não conseguem tirar a habilitação na primeira tentativa do exame prático) é de
70% numa média geral. Talvez Minas Gerais não seja assim tão ruim.