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Trem da Morte: com vista impressionante e passado sombrio, este trajeto une Brasil aos Andes

Trem da Morte: com vista impressionante e passado sombrio, este trajeto une Brasil aos Andes

Redação
Por: Redação
08/06/2025 às 19h00 Atualizada em 08/06/2025 às 22h00
Trem da Morte: com vista impressionante e passado sombrio, este trajeto une Brasil aos Andes
Foto: Reprodução

O percurso tem cerca de 1.600 km ao todo e passa por paisagens impressionantes, mas recebe o nome de um passado sombrio

Um antigo trajeto de trem liga a cidade de Puerto Quijarro, na fronteira entre Brasil e Bolívia, a apenas 11 quilômetros de Corumbá (MS), a Santa Cruz de la Sierra, capital do departamento de Santa Cruz, nas planícies tropicais às margens do Rio Piraí. O percurso, que tem cerca de 1.600 km ao todo, passa por paisagens impressionantes — entre rios e baías, a fauna local composta por aves e jacarés, as planícies pantaneiras brilhando verdes sob o sol, desfiladeiros e pontes antigas. Parte da linha férrea que une Brasil à Bolívia (o trajeto de Corumbá até Puerto Quijarro pode ser feito a pé) passa por Machu Picchu, a cidade "perdida" de um dos maiores impérios pré-colombianos da América Latina, os Incas. A construção se iniciou em 1912, e a linha começou a funcionar ao longo dos anos 1950. Mas o nome do trajeto revela um passado sombrio: o "Trem da Morte", que já passou por privatizações e foi quase inteiramente abandonado no começo dos anos 2000, recebeu essa alcunha por um evento do século 20: o transporte de pessoas que sofriam de febre amarela e hanseníase (doença infecciosa que afeta a pele e os nervos periféricos, conhecida por causar lesões).  Mas esse não foi o único motivo: por percorrer trechos isolados em termos de infraestrutura, e frequentemente sem a segurança adequada, a linha era conhecida por ataques esporádicos de povos nativos e comunidades por onde passava, além de registrar, muitas vezes, assaltos e acidentes. O trajeto também era perfeito para o transporte de substâncias ilegais pela fronteira, e os trilhos do trem eram usados para o escoamento da mercadoria. A viagem completa pelo Trem da Morte, do início ao fim das operações, durava aproximadamente uma semana — um tempo longo de espera que favorecia as más condições compartilhadas com os doentes transportados por ali.
Apesar da fama, o trajeto que liga Brasil a Bolívia já serviu de inspiração para uma composição de Geraldo Roca e Paulo Simões que, na década de 1970, foi selecionada como símbolo do Mato Grosso do Sul. A música, Trem do Pantanal, fala sobre o caminho "rumo a Santa Cruz de la Sierra", enquanto o "velho trem atravessa o Pantanal" sobre os trilhos obscuros (mas encantadores) do percurso. Há duas camadas na música, conta um artigo de Arlinda Cantero Dorsa, pesquisadora em Letras e Comunicação:
"Na primeira estrofe, o trem transporta fugitivos da guerra; na segunda, a expressão linguística portal é o código de comunicação entre o fugitivo da revolução e a família que ficou em uma região do Brasil; e, na terceira estrofe, retorna à expressão 'fugitivo da guerra', com uma informação nova que mostra seu estado emocional representado pelo segmento linguístico medo [...]."
Para ela, a interpretação dos três segmentos revela também três personagens distintos marcados pelo trem de fronteira: os nativos sul-mato-grossenses, que desbravam a "extensa região geográfica" e contribuem para o surgimento de novas cidades, o desenvolvimento comercial e o transporte de mercadorias; os empreendedores que tentavam lucrar com o trajeto; e, por fim, os traficantes de drogas, que aproveitam a travessia para transportar ilícitos pela fronteira.
Antes, o Trem da Morte oferecia uma interligação com a cidade de Bauru, no interior paulista, que levava até Corumbá. Mas essa linha hoje está reservada ao transporte de cargas. Quanto ao restante da viagem, que cruza a fronteira rumo à Bolívia, é feita pela Ferroviaria Oriental no Trem da Morte e dura, em média, 17 horas até Santa Cruz de la Sierra. O Expresso Oriental, como é chamado oficialmente, tem cabines com televisão, banheiros químicos e até ar-condicionado, mas é marcado por pequenos inconvenientes — como pessoas tentando aplicar golpes (inclusive na venda de tickets de viagem), e bagagens (e crianças) espalhadas pelo chão, além de um sacolejo natural.
Atualmente, no entanto, o Trem da Morte parece não estar operando com transporte de passageiros. O serviço foi suspenso durante a pandemia de COVID-19 e, até o momento, não foi retomado.
Fonte: Revista Fórum
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