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Martelo das Feiticeiras: como um livro alimentou séculos de perseguição

Martelo das Feiticeiras: como um livro alimentou séculos de perseguição

Redação
Por: Redação
17/07/2025 às 15h00 Atualizada em 17/07/2025 às 18h00
Martelo das Feiticeiras: como um livro alimentou séculos de perseguição
Capa do livro "Martelo das Feiticeiras", publicado no século XV, com letras góticas e ilustrações de época.

Publicado em 1487, o tratado serviu como guia para caça às bruxas na Europa e foi usado como base jurídica e religiosa para a perseguição de mulheres acusadas de bruxaria

Escrito pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger , O Martelo das Feiticeiras (Malleus Maleficarum , em latim) tornou-se uma das obras mais influentes na perseguição de mulheres acusadas de bruxaria na Europa entre os séculos 15 e 17. Publicado originalmente em 1487, o livro foi amplamente difundido após a invenção da imprensa e utilizado por tribunais seculares e eclesiásticos como manual de investigação e julgamento . Estima-se que seus ensinamentos tenham contribuído para a morte de mais de 100 mil pessoas, a maioria mulheres.
Estrutura do livro e métodos de julgamento
O texto é dividido em três partes:
  1. Identificação de feiticeiras – Descreve como reconhecer mulheres supostamente ligadas ao diabo.
  2. Atos cometidos – Apresenta supostos crimes cometidos por bruxas, como pactos satânicos e malefícios.
  3. Métodos de julgamento – Detalha técnicas de interrogatório e provas utilizadas para condenação.
A obra não previa defesa. A simples denúncia , muitas vezes anônima, era suficiente para iniciar um processo. Mulheres eram obrigadas a se despir para a busca de “marcas do diabo ” — sinais físicos interpretados como evidências de pactos demoníacos.
Fundamentação religiosa e misoginia
Embora não tenha sido o primeiro texto sobre bruxaria, O Martelo das Feiticeiras destacou-se pela veemência e pela misoginia explícita. O livro reforçava estereótipos já existentes, como a ideia da mulher como fraca, perigosa e mais suscetível à tentação do mal. Com base em mais de 100 fontes religiosas e jurídicas , o tratado tornou-se uma referência para teólogos, juízes e autoridades locais. Sua influência foi tão ampla que moldou a imagem da “bruxa” na cultura europeia por séculos.
Rejeição em alguns países, mas ampla aceitação
Apesar de sua difusão, nem todos os países ou autoridades religiosas aceitaram o livro. Em Espanha e Itália , associadas à Inquisição , houve resistência ao uso do tratado por parte das autoridades eclesiásticas. Mesmo assim, a obra foi publicada em quase 30 edições e circulou por toda a Europa, consolidando-se como uma ferramenta poderosa para identificar, condenar e eliminar mulheres que se desviassem das normas sociais da época.
O caso de Katharina Henot
Um dos casos mais emblemáticos da perseguição descrita no livro é o de Katharina Henot , uma comerciante alemã executada em 1627 sob acusação de “magia maléfica”. Seu julgamento desencadeou uma série de outras condenações na região. Os processos variavam conforme o juiz: juízes mais eruditos tendiam a aplicar penas mais brandas, enquanto autoridades leigas , especialmente em vilas menores, frequentemente condenavam as acusadas à morte.
Edição brasileira e legado do texto
A edição brasileira mais recente de O Martelo das Feiticeiras foi publicada em 2020 pela Editora Rosa dos Tempos , com tradução de Paulo Fróes , prefácio do psiquiatra Carlos Amadeu B. Byington e introdução da feminista Rose Marie Muraro .

O lançamento busca jogar luz sobre a brutalidade cometida em nome da fé e refletir sobre os mecanismos históricos de opressão às mulheres — para que jamais se repitam.


Com informações: Revista Fórum
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