Ativista comunista e feminista completa um século de vida como símbolo da resistência democrática e da luta por direitos no Brasil
Ao completar
100 anos de vida em 17 de julho de 2025 ,
Clara Charf é celebrada como uma das figuras mais corajosas e influentes da história política brasileira. Nascida em
Maceió (AL) , a ativista deixou um legado marcante na luta pela
democracia, pelos direitos humanos, pela igualdade de gênero e contra a ditadura militar — sendo reconhecida pela
Secretaria Nacional de Mulheres do PT (SNMPT) e por diversas instituições como uma pioneira do feminismo político no país.
Uma vida dedicada à luta
Clara ingressou na política ainda jovem, aos
20 anos , participando dos movimentos internacionais
contra a bomba atômica e em defesa da paz durante a
Guerra Fria , em 1945. Em 1946, filiou-se ao
Partido Comunista Brasileiro (PCB) , onde conheceu
Carlos Marighella , seu companheiro de vida e militância até seu assassinato em 1969. Juntos, enfrentaram a clandestinidade, a repressão e a opressão do regime civil-militar instaurado em
1964 . Clara integrou a
Ação Libertadora Nacional (ALN) , organização fundada por Marighella, considerado pelo regime como o "inimigo número um". O relacionamento entre os dois, que durou
21 anos , foi tanto afetivo quanto político. Após o assassinato de Marighella por agentes do Estado, Clara foi forçada ao
exílio por dez anos , vivendo com identidade falsa e trabalhando como tradutora em países como Cuba. Só retornou ao Brasil após a
Lei da Anistia de 1979 .
Rompendo o cerco machista
A trajetória de Clara Charf é descrita pela
Fundação Perseu Abramo (FPA) como a de uma mulher que
"rompeu o cerco imposto por uma tradição machista e conservadora" . Num tempo em que o feminismo não era amplamente articulado nem aceito, ela já defendia a autonomia, a liberdade e o protagonismo feminino nas lutas sociais.
“Ela passou a ficar muito próxima da luta das mulheres, das liberdades, dos direitos e por uma condição social sempre mais justa e igualitária. Justiça é uma palavra importante para Clara”, disse Isa Grinspum Ferraz , documentarista e sobrinha da ativista, à Agência Brasil.
Engajamento no Partido dos Trabalhadores
De volta ao Brasil, Clara se filiou ao
Partido dos Trabalhadores (PT) , intensificando sua atuação em causas feministas. Em
1982 , candidatou-se a deputada estadual por São Paulo, conquistando
20 mil votos , embora não tenha sido eleita. Foi integrante da
Secretaria Nacional de Mulheres do PT e presidiu a
Associação Mulheres Pela Paz , organização que fundou em
2003 com o objetivo de combater a violência contra as mulheres e visibilizar o papel feminino na construção da paz. Em
2005 , coordenou no Brasil o movimento internacional
Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo , que promoveu a indicação coletiva de mil mulheres ao
Prêmio Nobel da Paz . No país, foram escolhidas
52 ativistas brasileiras para representar essa causa.
Reconhecimento e participação institucional
Além de sua atuação partidária, Clara teve papel destacado em órgãos públicos de direitos humanos:
- Membro da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos
- Conselheira emérita do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM)
- Referência constante em debates sobre memória, verdade e justiça
Sua trajetória é registrada no
Portal Memórias da Ditadura , que destaca sua coragem diante da perseguição, prisão e exílio.
Legado de uma guerreira
Clara Charf representa a fusão entre
resistência política e luta feminista , tendo enfrentado não apenas a ditadura, mas também os limites impostos pela sociedade patriarcal. Sua vida inspira novas gerações a seguir lutando por um Brasil mais justo, democrático e igualitário. Como afirmado pela SNMPT:
“Preservar a memória de Clara Charf é valorizar quem, no passado, defendeu valores fundamentais para a democracia. Seu exemplo de determinação, coragem e amor à luta segue vivo.”