Maria Inês Barbosa, da UFMT, foi retirada da 15ª Conferência Municipal de Saúde por usar termo “todes”. CNS, UFMT e Abrasco repudiaram o ocorrido como violência política de gênero.
Professora denuncia censura em conferência de saúde em Cuiabá A professora Maria Inês da Silva Barbosa, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), classificou como “fascista, misógina e racista” a atitude do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL-MT), que a interrompeu e expulsou da abertura da 15ª Conferência Municipal de Saúde no dia 30 de julho de 2025. O motivo alegado foi o uso do termo “todas, todos e todes” durante sua fala como palestrante convidada. Em entrevista ao Fórum Onze e Meia, divulgada na quinta-feira (7), Maria Inês afirmou que o episódio vai além de um ataque pessoal. “Quando ele me interrompe, está interrompendo um processo histórico da saúde enquanto direito constitucional. Não é só minha voz que ele está calando”, disse.
Defesa do SUS e da inclusão Especialista em saúde da população negra, a professora destacou que o Sistema Único de Saúde (SUS) é fruto de uma luta histórica por direitos, especialmente de grupos historicamente marginalizados. “Ele tem uma atitude autoritária, fascista, misógina e racista em relação ao que nós arduamente conquistamos: o direito à saúde. Somos um dos poucos países do mundo onde a saúde é garantida constitucionalmente”, afirmou. Maria Inês ressaltou que seu uso da linguagem inclusiva está alinhado com sua trajetória acadêmica e militância por políticas públicas antirracistas, antissexistas e inclusivas. “Para mim, ficou claro que foi um ataque ao direito de todas, todos e todes terem acesso à saúde com dignidade”, acrescentou.
Prefeito excedeu poderes no evento A professora destacou que o prefeito não tinha assento oficial na conferência, cujas vagas foram distribuídas com 50% para organizações da sociedade civil, 25% para trabalhadores da saúde e 25% para prestadores de serviço. Ela foi convidada pelo Conselho Municipal de Saúde, com apoio de movimentos sociais e colegas da UFMT, e não pela gestão municipal. “Meu convite vem de quem conhece minha trajetória. Sou militante desde os 15 anos. Ele não estava ali para decidir quem fala ou deixa de falar”, afirmou.
Reações institucionais e repúdio nacional O caso gerou ampla repercussão e repúdio de instituições. O Conselho Nacional de Saúde (CNS), a Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) emitiram notas de apoio à professora. A Abrasco classificou o ato como violência política de gênero. Outras entidades acadêmicas e de direitos humanos também se manifestaram, defendendo a liberdade de expressão e o respeito à diversidade em espaços públicos de debate técnico e social.
Justificativa do prefeito e reação da plateia Durante o evento, Brunini interrompeu a palestra afirmando que “doutrinação ideológica” não seria permitida em sua gestão. “Se a senhora não se sentir voluntária em fazer uma apresentação que discuta a saúde sem doutrinação ideológica, vou suspender a apresentação”, disse. A plateia reagiu com vaias. A conferência, com temática “Consolidar o SUS: Com a força do povo, participação social e políticas públicas”, é um espaço institucional previsto para debate plural sobre saúde pública, com participação da sociedade civil organizada.
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Revista Fórum