Logística complexa e navegação de longo curso marcam a jornada para conhecer o santuário de biodiversidade no litoral sul da Bahia.
Visitar o Parque Nacional Marinho de Abrolhos (PNMA) é uma experiência de imersão que começa muito antes do primeiro mergulho. Considerado o berço das baleias-jubarte e detentor da maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul, o arquipélago exige do viajante resiliência e planejamento estratégico. Localizado a cerca de 70 quilômetros da costa de Caravelas, no sul da Bahia, o acesso ao parque ainda é um dos maiores gargalos para o turismo ecológico no país, envolvendo deslocamentos terrestres exaustivos e janelas meteorológicas estreitas.
Atualmente, as embarcações autorizadas pelo ICMBio partem exclusivamente do cais de Caravelas. Para quem chega de outros estados, o desafio logístico é nítido: os aeroportos de Porto Seguro (BA) e Vitória (ES) ficam a centenas de quilômetros de distância, exigindo horas de estrada antes mesmo de enfrentar as quatro horas de navegação em mar aberto. Contudo, para aqueles que persistem, a recompensa surge na forma de águas cristalinas, recifes de corais exclusivos e uma fauna que parece ignorar a presença humana, tamanha a preservação do local.
Fundado em 1983, o PNMA foi pioneiro no Brasil ao estabelecer uma unidade de conservação estritamente marinha. Com mais de 91 mil hectares, o parque protege ecossistemas únicos, como os “chapeirões” — formações coralíneas em formato de cogumelo que podem atingir até 20 metros de altura e que não existem em nenhum outro lugar do planeta. A área sob proteção abrange desde o Recife de Timbebas até o Parcel dos Abrolhos e as ilhas que compõem o arquipélago, sendo um refúgio vital para mais de 1.300 espécies registradas.
A preservação de Abrolhos é garantida por um mosaico de Unidades de Conservação (UCs) que cercam a região, incluindo as Reservas Extrativistas de Cassurubá e Corumbau, e parques nacionais terrestres como o do Descobrimento e o do Monte Pascoal. Esse conjunto de áreas protegidas é essencial para a manutenção da isonomia ambiental, garantindo que a vida marinha tenha corredores seguros para reprodução e alimentação, protegidos da pesca predatória e do tráfego marítimo desordenado.
Além da biodiversidade, o arquipélago carrega uma importância geopolítica e científica estratégica. A Ilha de Santa Bárbara, embora sob jurisdição da Marinha do Brasil, abriga o farol que orienta a navegação na costa baiana e serve como base para pesquisas meteorológicas e monitoramento ambiental. O contato humanizado com a natureza em Abrolhos, através do mergulho autônomo e da observação de aves como atobás e fragatas, reforça a urgência de políticas públicas que facilitem o acesso consciente a este patrimônio nacional.
Apesar das “desventuras” logísticas relatadas por visitantes — que incluem desde cancelamentos de voos até condições adversas de vento —, o consenso entre mergulhadores e biólogos é o mesmo: vale a pena. O pôr do sol sobre as formações rochosas e a visão das baleias-jubarte (que visitam a região entre julho e novembro) são cenas que definem a relevância social e ambiental do parque. Abrolhos não é apenas um destino de lazer, mas um laboratório vivo da resiliência do ecossistema marinho brasileiro.
O futuro do parque depende do equilíbrio entre a exploração turística sustentável e o rigor na fiscalização. Como primeiro parque marinho do país, Abrolhos ainda é desconhecido por grande parte da população brasileira, o que ressalta a importância de iniciativas de divulgação científica e educação ambiental. Conhecer este santuário é entender a complexidade da vida oceânica e a necessidade de proteger as riquezas que o Brasil guarda abaixo da linha do horizonte.
*Com informações: ECO.