Artigo analisa como o sucateamento da escola pública brasileira não é uma falha, mas uma peça fundamental de um sistema que prioriza o mercado em detrimento do direito social ao conhecimento.
O baixo investimento na educação básica no Brasil, muitas vezes justificado pelo teto de gastos, esconde uma engrenagem política e social complexa. Segundo o historiador e professor Raphael Silva Fagundes, a precariedade da escola pública não é um acidente, mas um projeto estruturado dentro da lógica neoliberal. Esse sistema redireciona os recursos para o ensino superior — onde as classes média e alta exercem maior pressão política — enquanto abandona a base, que atende à população mais pobre.
A Ignorância Programada e o Mercado Educacional
Um dos pontos centrais do debate é o distanciamento das elites em relação à escola pública. Ao matricularem seus filhos em instituições privadas ou institutos federais, os setores mais organizados da sociedade desconhecem a realidade das escolas municipais e estaduais, resultando em uma apatia coletiva.
Essa “ignorância programada” beneficia diretamente o setor privado. O Brasil possui uma das dez maiores populações em idade escolar do mundo, o que transforma a educação em um mercado extremamente lucrativo. Em comparação com o setor privado, o investimento público por aluno é drasticamente inferior:
Aporofobia e a Ideologia do Mérito
O artigo destaca como a lógica neoliberal fomenta a aporofobia (rejeição ao pobre). Dentro desse raciocínio, a qualidade deve ser paga; portanto, o que é gratuito deve ser precário. Essa visão é sustentada por uma crença meritocrática que convence inclusive as vítimas do sistema de que sua situação é fruto de um fracasso individual.
“A violência pode ser importante de forma momentânea, mas sem convencimento do oprimido de sua própria inferioridade não se tem dominação estável”, cita Jessé Souza no texto.
O Dualismo Perverso: Acolhimento vs. Conhecimento
Enquanto o Sistema Único de Saúde (SUS) conseguiu estabelecer um patamar de qualidade reconhecido em áreas como vacinação e medicamentos, a escola pública básica sofre de um “dualismo perverso”:
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Para os ricos: Escola do conhecimento e da erudição.
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Para os pobres: Escola do acolhimento social e das “aprendizagens mínimas de sobrevivência”.
Essa estrutura impede que o jovem pobre acesse o ensino superior e a ciência, empurrando-o para disciplinas focadas no “empreendedorismo de si” e em técnicas básicas de trabalho. O resultado é o que o autor chama de “desperdício de cérebros potenciais”.
O Idiota Neoliberal e a Desintegração Coletiva
O texto conclui com um alerta sobre o impacto dessa cultura no pensamento reflexivo. A racionalidade neoliberal geraria o “idiota” (do grego idios, focado apenas no privado), que abdica de projetos coletivos em busca de vantagens pessoais imediatas. Isso explica por que, muitas vezes, apenas os professores se mobilizam em defesa da educação, enquanto o restante da sociedade permanece em silêncio diante de cortes orçamentários.
Salvar a escola pública é, para o autor, um ato essencial para salvar a democracia. Sem uma educação básica que garanta a formação multilateral e a inserção crítica das novas gerações, a desigualdade social permanecerá como a base inabalável da sociedade brasileira.
Com informações: Diplomatique, Raphael Silva Fagundes