Conecte-se conosco

Meio Ambiente

Rede latino-americana une saberes para regenerar florestas e comunidades

Publicado

em

A Aliança para Restauração Biocultural e Ecológica na América Latina conecta atores locais e globais em um “laboratório vivo” para atuar em cinco biomas estratégicos — Amazônia, Andes, Cerrado, Mata Atlântica e Chaco

Encontro reuniu integrantes de várias frentes na Reserva Matutu (MG) (Foto: Lakshmi Bayer)

Uma união para recuperar ecossistemas e fortalecer culturas tradicionais em cinco biomas estratégicos – Amazônia, Andes, Cerrado, Mata Atlântica e Chaco. Esse é o objetivo da Aliança para Restauração Biocultural e Ecológica na América Latina (ARBEAL). Trata-se de uma rede que agrupa esforços internacionais para regenerar áreas críticas da América Latina, combinando ciência de ponta com conhecimentos ancestrais.

A ARBEAL foi lançada este mês na Reserva Matutu, em Minas Gerais, durante o Matutu Summit, evento que reuniu organizações indígenas, instituições de pesquisa e representantes dos setores público e privado. “A Aliança nos permite potencializar ações já em curso e ampliar seu impacto positivo. Aqui lançamos as primeiras sementes, conscientes de que a regeneração leva tempo”, afirma Manno França, presidente da Fundação Matutu, uma das idealizadoras da iniciativa.

A aliança reúne entidades como a Acción AndinaConservation InternationalThe Nature Conservancy e Ecological Health Network, além de lideranças indígenas Huni Kuin (Acre, Brasil) e Shipibo (Amazônia Peruana). Entre os destaques estão projetos de restauração ecológica em larga escala, programas de pagamento por serviços ambientais, viveiros comunitários e ações de pesquisa científica e monitoramento da biodiversidade.

Meio ambiente e saúde

A relação entre conservação ambiental e saúde humana foi um dos pontos de destaque do encontro. O epidemiologista Philip Weinstein, da Universidade de Adelaide (Austrália), apresentou estudos que apontam aumento de até 6% no risco de malária para cada 1% de floresta suprimida na Amazônia. “O desmatamento altera o lençol freático, saliniza rios e elimina predadores naturais dos mosquitos”, explicou. “A restauração pode reduzir diretamente a incidência de doenças infecciosas.”

Anúncio

Resultados já são visíveis em diferentes territórios. “Até 2025 restauramos 100 mil hectares na Mata Atlântica, combinando geotecnologia, viveiros e saberes tradicionais para gerar renda e consolidar cadeias extrativistas”, diz Ludmila Pugliese, da Conservation International.

Em Minas Gerais, 1.791 propriedades aderiram ao Pagamento por Serviços Ambientais, que remunera a proteção de nascentes, o sequestro de carbono e a preservação da fauna e flora. “É uma virada de chave: em vez de punir quem degrada, passamos a valorizar quem conserva”, diz Leonardo Ivo, da The Nature Conservancy.

A dimensão biocultural se materializa na criação da Reserva Intercultural Huwa Karu Yuxibu , projeto coordenado por Mapu Huni Kuin que, com o apoio da Fundação Matutu e da Acción Andina, adquiriu 2.450 hectares próximos a Rio Branco (AC). Lá, o resgate da língua e dos rituais tradicionais convive com práticas agroecológicas, hortas de espécies nativas e viveiros comunitários e um centro de terapias indígenas. “Protegemos a floresta para fortalecer a saúde e a cultura do nosso povo”, diz Mapu Huni Kuin.

Combate ao fogo e laboratórios vivos-piloto

Com raízes em 1984, a Reserva Matutu compreende hoje cerca de três mil hectares de Mata Atlântica e mantém matrizes genéticas que resistem a mudanças climáticas e queimadas. Para enfrentar esses riscos, em 1993 foi criada a Brigada Matutu — grupo voluntário comunitário que combateu mais de 400 incêndios florestais e hoje inspira brigadas comunitárias no Acre e na Argentina. “Nossa visão é expandir essa aliança, conectando pessoas e iniciativas que coloquem a mão na massa pela restauração”, afirma Manno França.

Até dezembro serão inaugurados cinco projetos-piloto nos Andes, na Amazônia, na Mata Atlântica, no Cerrado e no Chaco, permitindo que pesquisadores, agricultores e lideranças indígenas adaptem metodologias em campo. Workshops regionais (junho a novembro) calibrarão indicadores e planos de ação, seguidos por chamadas públicas para integrar universidades, ONGs e setor privado. A partir de dezembro, relatórios semestrais divulgarão dados sobre biodiversidade, qualidade da água e impacto socioeconômico, garantindo transparência e ajustes precisos nas estratégias.

“Só unindo a sabedoria ancestral ao rigor da ecologia moderna podemos devolver íntegra saúde aos ecossistemas”, reforça James Aronson, da Ecological Health Network. “É esse compromisso conjunto que faz da ARBEAL um exemplo replicável, pronto para inspirar ações de restauração em todo o planeta”, afirma Manno França.

Anúncio

Mais Informações

 


 

Continue lendo
Anúncio

Clique para comentar

Deixa uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Brasil

Resiliência em Atafona: A história do “Casa-bar Erosão” e a luta contra o avanço do mar

Publicado

em

Por

Com um “rosto” simpático desenhado na fachada e muita música, Dona Ines Vidipo mantém vivo um ponto de encontro na Praia de Atafona (RJ), enquanto acompanha o avanço implacável da natureza sobre sua estrutura.


Na Praia de Atafona, em São João da Barra (RJ), a arquitetura e a sobrevivência andam de mãos dadas. Entre janelas que formam “olhos” e uma boca desenhada na parede, o “Casa-bar Erosão” destaca-se como um símbolo de resistência. Administrado por Ines Vidipo desde 2020, o local mistura a intimidade de um lar com a descontração de um bar, onde karaokê, churrasco e reggae ditam o ritmo.

Ines, que se define como uma “apaixonada por Atafona”, frequenta o distrito há mais de uma década. Antes de se estabelecer no atual endereço, ela sentiu na pele o poder destrutivo do mar: seu antigo estabelecimento, o famoso “Birosca”, foi engolido pelo oceano em plena segunda-feira de Carnaval.

“O poste em frente inclinou e caiu. Foi aí que vi e pensei: ‘é, agora vai cair tudo aqui’”, relembra Ines sobre a perda de seu antigo negócio.

Um recomeço feito de arte e reciclagem

Sem desistir, Ines recomeçou no “Casa-bar Erosão”. O local é um testemunho de solidariedade e sustentabilidade:

  • Decoração Afetiva: As paredes coloridas e o quadro com o nome do bar foram presentes de amigos próximos.

  • Sustentabilidade: Grande parte dos utensílios e móveis são itens reciclados, resgatados do lixo deixado na praia ou recebidos por doações.

  • IA na Música: Antenada com as tecnologias, Ines até utilizou Inteligência Artificial para ajudar a idealizar uma música que celebra as belezas do distrito.

A sombra da erosão marinha

Apesar do clima de festa e simpatia, a apreensão é constante. A erosão, fenômeno que marca a história de Atafona, já dá sinais claros na estrutura atual:

  • Rachaduras: Ines monitora fendas que surgem na cozinha devido à umidade que penetra pelo solo.

  • Esccoras improvisadas: Telhas são usadas para tentar impedir que paredes cedam.

  • Tensão constante: “Se cair aquele lado, cai a casa”, desabafa a proprietária.

Para Ines, a missão agora é manter o espaço aberto “até onde a natureza deixar”. O som do karaokê e a música alta não são apenas entretenimento, mas uma forma de mascarar o medo do avanço do mar.


O Fenômeno de Atafona

A Praia de Atafona é um dos casos mais críticos de erosão costeira no Brasil. A combinação do avanço do mar com a diminuição da vazão do Rio Paraíba do Sul faz com que o oceano avance metros sobre a cidade todos os anos, destruindo ruas e centenas de casas.

Anúncio


Com informações: ECO

Continue lendo

Justiça

Vitória no Alto Solimões: Justiça fixa prazo de um ano para conclusão da TI Sururuá no Amazonas

Publicado

em

Por

Decisão judicial encerra mais de uma década de paralisia no processo de demarcação; Funai e União têm 30 dias para apresentar cronograma detalhado para as terras ocupadas pelos povos Kokama e Tikuna

A Justiça Federal de Tabatinga (AM) proferiu uma decisão histórica para os povos indígenas do Alto Solimões. Após mais de dez anos de estagnação, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a União foram obrigadas a concluir a demarcação física da Terra Indígena (TI) Sururuá no prazo máximo de 12 meses.

A área, localizada nos municípios de Benjamin Constant e São Paulo de Olivença, é o lar das etnias Kokama e Tikuna. Embora a terra tenha sido oficialmente declarada indígena pelo Ministério da Justiça ainda em 2010, o processo administrativo de demarcação física — a etapa que estabelece os marcos e limites geográficos no terreno — estava paralisado desde 2014.

Omissão do Estado e Insegurança Territorial

A sentença atende a uma ação do Ministério Público Federal (MPF), que argumentou que a demora excessiva viola direitos constitucionais fundamentais. Para a juíza federal responsável pelo caso, a inércia do poder público por mais de uma década constitui uma omissão injustificada, deixando as comunidades em situação de vulnerabilidade e insegurança jurídica sobre seu território originário.

A decisão reforça que o direito às terras tradicionalmente ocupadas é assegurado não apenas pela Constituição Federal de 1988, mas também por tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, como a Convenção 169 da OIT.

Cronograma e Transparência

Além do prazo final de um ano, a Justiça impôs obrigações imediatas para garantir que a decisão não seja ignorada:

  • Prazo de 30 dias: A Funai e a União devem apresentar um cronograma detalhado de trabalho.

  • Recursos e Etapas: O documento deve especificar as fontes de recursos financeiros e cada etapa técnica da demarcação.

  • Informações Periódicas: As instituições deverão reportar regularmente o andamento das atividades à Justiça.

A sentença está sujeita ao duplo grau de jurisdição (reexame por tribunal superior), mas estabelece um marco de pressão sobre o Governo Federal para a retomada das políticas territoriais na Amazônia.

Anúncio


Entenda o processo de demarcação de uma TI:

  1. Estudos de Identificação: Realizados por especialistas para comprovar a ocupação tradicional.

  2. Contestações: Prazo para que interessados questionem os estudos.

  3. Declaração: Ato do Ministério da Justiça que reconhece os limites da terra.

  4. Demarcação Física (Fase atual de Sururuá): Colocação de marcos e sinalização da área.

  5. Homologação: Decreto assinado pela Presidência da República.


Com informações: Agência Brasil, Ministério Público Federal (MPF) e ECO

 

Continue lendo

Brasil

Justiça Internacional: Tribunal da Alemanha marca audiências contra a TÜV SÜD pelo crime de Brumadinho

Publicado

em

Por

Processo movido por 1,4 mil vítimas busca indenização de R$ 3,2 bilhões; enquanto isso, no Brasil, audiências criminais que podem levar réus a júri popular começam em fevereiro

Sete anos após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), a busca por reparação ganha um capítulo decisivo na Europa. O Tribunal Distrital de Munique, na Alemanha, agendou para o período de 26 a 28 de maio de 2026 as audiências do processo movido por 1,4 mil atingidos contra a empresa alemã TÜV SÜD AG.

A ação, liderada por moradores de Brumadinho e Mário Campos, pede a responsabilização civil da holding alemã e o pagamento de uma indenização estimada em R$ 3,2 bilhões. A TÜV SÜD era a controladora da subsidiária brasileira que atestou a estabilidade da barragem da Mina Córrego do Feijão apenas três meses antes do colapso que matou 272 pessoas em 2019.

Negligência ou estabilidade? Os argumentos em jogo

As vítimas, representadas pelo escritório Pogust Goodhead — o mesmo que atua no caso Mariana contra a BHP —, sustentam que a barragem estava em péssimas condições e operava muito abaixo dos parâmetros internacionais de segurança.

Por outro lado, em nota oficial, a TÜV SÜD AG negou responsabilidade legal pelo rompimento. A empresa argumenta que:

  • A emissão do laudo de estabilidade foi legítima e seguiu padrões técnicos;

  • Uma vistoria de autoridades em novembro de 2018 teria confirmado a solidez da estrutura;

  • A barragem estaria estável no momento das declarações.

No entanto, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e organizações internacionais como o ECCHR classificam o ocorrido como um “crime” e não um desastre inevitável, apontando negligência deliberada para favorecer a operação da mineradora Vale.

O cenário jurídico no Brasil: O início do júri popular?

Enquanto o processo civil avança na Alemanha, a Justiça brasileira inicia uma etapa crucial na esfera criminal. No dia 23 de fevereiro de 2026, a 2ª Vara Federal Criminal de Belo Horizonte começa as audiências de instrução.

Anúncio

  • O que está em jogo: Definir se os 15 réus (ex-diretores da Vale e funcionários da TÜV SÜD) serão levados a júri popular.

  • Acusação: Homicídio doloso qualificado, com dolo eventual (quando se assume o risco de matar).

  • Previsão: Devido à complexidade e ao número de testemunhas, os depoimentos podem se estender até maio de 2027.

A luta contra a morosidade

A Avabrum (Associação dos Familiares de Vítimas) destaca que o processo foi marcado por sucessivas barreiras jurídicas, incluindo disputas de competência entre a Justiça Estadual e Federal que só foram resolvidas pelo STF no final de 2022. A digitalização de 84 volumes de processos e a necessidade de citar réus no exterior por cartas rogatórias também contribuíram para a lentidão.

Para os familiares, o julgamento na Alemanha representa uma esperança de que a responsabilidade corporativa transponha fronteiras, punindo não apenas quem executou o laudo, mas quem controlava a operação do outro lado do oceano.


Com informações: Agência Brasil, MAB, Avabrum.

 

Continue lendo
Anúncio


Em alta

Verified by MonsterInsights