Para Vera Chaia, expansão do Brics e possível redução do uso do dólar em comércio internacional ameaçam supremacia dos EUA. Lula é visto como líder central na articulação progressista global.
Brics como contraponto à ordem liderada pelos EUA
A crescente influência do Brics no cenário geopolítico global representa uma ameaça direta à hegemonia dos Estados Unidos, segundo a cientista política Vera Chaia , pesquisadora do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (Neamp) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ela afirmou que o bloco tem se consolidado como um polo de poder econômico e político alternativo, especialmente com a inclusão de países como Irã, Argélia e Etiópia.
“O Brics envolve China, Índia, Rússia, África do Sul, Brasil e agora outros tantos países, como o Irã, que é inimigo mortal dos Estados Unidos e de Israel. É uma força política importante, uma força econômica que está se impondo e que já está se contrapondo aos Estados Unidos”, destacou.
Desdolarização como ponto central de tensão
Um dos principais motivos de preocupação para os EUA, segundo Chaia, é a possibilidade de os países do Brics reduzirem ou eliminarem o uso do dólar em transações comerciais bilaterais. A adoção de moedas locais ou de mecanismos de troca direta entre membros do bloco pode, a médio prazo, enfraquecer a posição hegemônica do dólar como moeda-reserva global.
“A maior rivalidade que Trump tem é em relação ao Brics, à possibilidade de o dólar sair como moeda circulante nesse conglomerado de países”, avaliou a pesquisadora, ressaltando que essa mudança estrutural afeta não apenas o comércio, mas também o poder de influência dos EUA em decisões econômicas internacionais.
Política externa de pressão e chantagem
Chaia classificou a postura do ex-presidente norte-americano Donald Trump como baseada em pressão e coerção. “Ele atua realmente sob pressão, chantageando e se colocando como o senhor do céu, o senhor do inferno”, criticou, referindo-se a medidas recentes como tarifas sobre exportações brasileiras e restrições de vistos a autoridades do país.
Na avaliação dela, esse comportamento reforça a necessidade de países do Sul Global fortalecerem alianças multilaterais para equilibrar o poder nas relações internacionais.
Lula como líder da articulação progressista
A pesquisadora também comentou o encontro realizado em Santiago, no Chile, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e líderes progressistas da América Latina e Europa, como Gustavo Petro (Colômbia), Yamandú Orsi (Uruguai) e Pedro Sánchez (Espanha). Para Chaia, a iniciativa é estratégica diante do avanço de governos de extrema-direita e da retomada de discursos autoritários no cenário global.
“É importante a adoção dessa política externa porque [o Brasil] tem que arranjar amigos, colegas, companheiros, e ter uma base sólida para enfrentar esse governo americano, de extrema-direita”, afirmou.
Ela destacou ainda o papel simbólico e político de Lula como uma das figuras mais experientes da esquerda mundial. “Lula é o mais antigo dirigente de esquerda, todos os outros são recentes. E isso é muito importante porque a extrema direita está avançando em todos os campos e cantos. A atuação conjunta é fundamental. Um sozinho não faz verão.”
Respostas regionais à pressão dos EUA
Chaia citou como exemplos de resistência regional as críticas da Colômbia às deportações em massa de migrantes nos EUA e a resposta diplomática do Brasil às tarifas impostas sobre suas exportações. Essas ações, segundo ela, indicam uma nova disposição dos países latino-americanos em adotar posturas independentes frente à política externa norte-americana.
Apesar dos desafios internos enfrentados pelo Brasil, a pesquisadora considera que a articulação internacional liderada por Lula representa um esforço diplomático relevante para fortalecer a democracia, o multilateralismo e a cooperação Sul-Sul.
Com informações: Brasil de Fato